Concurso da NASA tem prêmio de US$ 3 mil para projetos feitos por estudantes

Você sonha em conhecer a Agência Espacial Americana (NASA)? Então, comece a colocar no papel como você imagina que uma estação espacial do futuro seja. Até o dia 1º de março de 2017, a Agência recebe projetos de estudantes do mundo todo sobre o tema. O prêmio? US$ 3 mil e a chance de apresentar a sua ideia na reunião da Sociedade Espacial Norte-americana.

Para se inscrever, é preciso ter até 18 anos e estar matriculado em uma escola da rede pública ou particular. O aluno deve criar desenhos ou projetos que descrevam detalhes de estações espaciais futurísticas. Ensaios literários, jogos e até esportes em gravidade zero serão aceitos. As estações não precisam estar em um planeta ou lua, mas devem ser relativamente autossuficientes.

Todos os participantes recebem um certificado. Não há custos para se inscrever.

Para mais informações, visite a página do concurso (em inglês).

FONTE: Universia

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Uso de tecnologias é o que gera riqueza no meio rural

Não é mais a posse da terra nem o tamanho da fazenda o que diferencia fazendeiros pobres e ricos. Hoje, o que gera mais riqueza, e a concentra nas mãos de uma minoria dos fazendeiros, é a maior capacidade que esses fazendeiros têm de usar bem as tecnologias agrícolas disponíveis. A conclusão é do estudo sobre concentração da renda agrícola feito com base nos dados do Censo de 2006.

Os pesquisadores calcularam o que chamam de “função de produção”, para saber que influência teria, separadamente, a terra, o trabalho e conjunto de insumos tecnológicos (fertilizantes, defensivos, rações, energia, máquinas, etc.), no crescimento da renda bruta dos fazendeiros e, assim, ter uma idéia sobre o que influenciou na concentração da renda bruta observada entre os agricultores brasileiros.

Eles usaram as informações de 74 mil produtores, escolhidos ao acaso, e encontraram que, para cada 100% de aumento na renda bruta, o incremento no uso de insumos tecnológicos contribuiu com 67,86% desse aumento da renda. O aumento de trabalho contribuiu com 22,81% e o aumento da área explorada contribuiu com apenas 9,3% para o aumento da renda.

Isto equivale a dizer que se um produtor, que explora 10 hectares com uma renda de R$ 10 mil, resolver dobrar a área explorada e, em decorrência, dobrar a quantidade de trabalho, ele vai conseguir aumentar a sua renda em apenas 32,14% (9,3%, por conta da área, mais 22,81%, por conta do trabalho a mais), ou seja, em R$ 3.214,00. Para dobrar a renda, ele terá que dobrar também quantidade de insumos tecnológicos aplicados, nos mesmos 10 hectares, o que aumentará sua renda em mais R$ 6.786,00, totalizando os R$ 10 mil.

Para verificar, na realidade, o que aconteceu com todos os produtores analisados, os pesquisadores calcularam o rendimento obtido em cada hectare pelos produtores, nas diferentes classes de renda, conforme a tabela abaixo. Com os dados de renda bruta das fazendas, da área explorada e do rendimento, os pesquisadores conseguiram avaliar o que contribuiu mais (em percentagem, em vermelho) para a renda dos produtores, se a área explorada ou se o rendimento/uso de tecnologias.

O rendimento, que é a renda bruta dividida pela área explorada em cada fazenda, é uma medida de produtividade, pois informa quantos reais cada hectare produziu. É também uma forma de sinalizar, de maneira agregada, por hectare, o nível do uso de tecnologias em várias fazendas: já que não se podem somar toneladas de grãos, com litros de leite e metros cúbicos de madeira, por exemplo, é possível somar a renda dos grãos, com a renda do leite e a da madeira.

Os dados da tabela mostram que o rendimento — ou seja, a produção, ou seja, o nível do uso de insumos — cresceu do grupo de produtores de menor renda mensal (de 0 a 2 salários mínimos) para o de maior renda (mais de 200 salários mínimos). A área das fazendas também cresce na mesma direção.

Os cálculos mostram que, nas três primeiras classes de renda (até 200 salários mínimos) a renda bruta/hectare (leia-se uso de tecnologias) contribuiu mais (de 54% a 57,9%, em vermelho) para formação da renda dos produtores do que o aumento da área explorada (de 42% a 45,97%) nas propriedades.

A exceção é a última classe, de mais de 200 salários mínimos. Aí, se alcançou o uso mais intensivo de tecnologias e a maior renda por hectare. Conseguiu-se o máximo que a tecnologia pode fazer num hectare. Nesse caso, quando o produtor trabalha próximo do limite de produtividade da tecnologia, o aumento de mais hectares cultivados contribuiu mais (50,68%) para melhorar a renda bruta dos produtores, do que pode contribuir (49,32%) a tentativa de aumentar a já elevada produtividade de cada hectare.

Essas evidências sugerem que, num quadro de recursos limitados, a melhor estratégia para que fazendeiros de menores ganhos melhorem sua renda bruta consiste em concentrar os seus investimentos no sentido de extrair o melhor rendimento possível de cada hectare explorado.

Nesse caso, ao invés de usar uma grande área ou toda a propriedade, eles devem estabelecer um plano gradativo de incorporação produtiva de áreas da fazenda, de maneira a extrair um alto valor de produção de cada novo hectare incorporado, seja de uma pastagem ou de uma lavoura, até completar a exploração de toda a propriedade, ao fim de vários anos.

Esses dados indicam que a intensidade no uso de tecnologias é mais determinante para a geração de rendas para o produtor do que a quantidade de terras utilizadas. Em outras palavras, um produtor com menos terras, se for mais eficiente e intensivo no uso de tecnologias, pode ter renda maior do que um grande produtor. Como usar mais terras também significa usar mais trabalho, os dados sugerem que a quantidade de tecnologias usadas também é mais determinante na geração de rendas do que a quantidade de trabalho.

Também sugerem que foi a facilidade e eficiência em usar tecnologias disponíveis que possibilitou a 500 mil produtores aumentarem suas rendas a ponto de concentrar, em suas mãos, 87% da produção e da renda bruta agrícola nacional. O desafio que se coloca é saber o que impediu os demais produtores de seguirem o mesmo caminho de facilidade e eficiência na intensificação tecnológica.

AUTORIA

Renato Cruz Silva
Secretaria de Inteligência e Macroestratégia da Embrapa

Por que o índice de preço dos Alimentos da FAO caiu?

O índice de preço dos alimentos da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO – Food and Agriculture Organization) atingiu um máximo da série, no valor de 240,1 pontos, em fevereiro de 2011 e caiu para algo em torno de 149 pontos em janeiro e fevereiro de 2016 (considerando 100 = a média de 2002-2004). Agora em agosto de 2016 o índice subiu um pouco e chegou a 165,6 pontos em agosto de 2016. Mesmo assim, muito abaixo da média do ano de 2011.

Qual é o principal fator de flutuação do preço dos alimentos?

Não há dúvida de que o preço da comida varia com o aumento do preço da energia. Existe uma alta correlação entre o preço do petróleo e o preço dos alimentos. Quando o preço da energia sobe, em geral, aumenta também o preço dos alimentos e, quando cai, puxa o preço dos alimentos para baixo.

Ao longo do século XX o preço dos combustíveis fósseis caiu e rebaixou o preço médio da comida. Houve alguns momentos de inflação da energia e dos alimentos, como na década de 1970 (devido a guerra do Yom Kippur) e início dos anos de 1980 devido à guerra Irã-Iraque. Mas no final da década de 1990 os preços das commodities fósseis estavam em seus níveis mais baixos do século, assim como o índice de preços da FAO. Por exemplo, em janeiro de 2002, o preço nominal do barril do petróleo estava em US$ 19,6 e o índice de preços da FAO estava em 90 pontos.

Tudo mudou nos anos seguintes. Os preços do petróleo subiram e puxaram para cima o preço dos alimentos. O ano de 2008 foi de aumento generalizado dos combustíveis fósseis e da comida. A crise econômica de 2009 jogou os preços para baixo. A retomada de 2010 e 2011 voltou a jogar os preços para cima. O índice da FAO variou entre 240 pontos em fevereiro de 2011 e 217 pontos em abril de 2013. Mas desde de então o preço dos alimentos caiu acompanhando a queda do preço do petróleo.

Um relatório do NECSI (New England Complex Systems Institute) publicado em 2011, mostra que há uma correlação importante entre o aumento do preço dos alimentos, calculados pela FAO (agência da ONU para a agricultura) e a ocorrência de protestos em todo o mundo. Sempre que o índice da FAO sobe, ocorrem mais manifestações.

Agora em 2016, o preço do petróleo subiu entre janeiro e agosto de 2016, puxando o preço dos alimentos para cima. Mas, no geral, o preço dos combustíveis fósseis e dos alimentos encontram-se em patamares baixos.

Contudo, esta trégua não deve durar para sempre. O mais provável é que o preço do petróleo e dos alimentos volte a subir. E como mostra o relatório do NECSI, preços altos de energia e de comida levam à ocorrência de manifestações populares e períodos revolucionários.

AUTORIA

José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do Portal EcoDebate
Doutor em demografia
Professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE
Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal
E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Publicado originalmente no Portal EcoDebate

A falta que faz o saber indígena

Até a ONU {Organização das Nações Unidas], às voltas com tantos problemas que envolvem países inteiros, está preocupada com as ameaças aos povos indígenas no Brasil, que considera mais graves que os dos anos 1980 – diz um informe especial publicado no primeiro dia deste mês [setembro 2016]. Causas: demarcação de terras estagnada, enfraquecimento da Fundação Nacional do Índio (Funai) pelos últimos governos e iniciativas em andamento na atual administração que podem agravar o panorama. E os índios – que ocuparam todo o território nacional – hoje não chegam a 1 milhão de pessoas (0,47% do total brasileiro), segundo o IBGE: eram 24 povos com 896.917 pessoas em 2010, das quais 324 mil vivendo em cidades e 572.083 em áreas rurais.

A relatora da ONU para os direitos dos povos indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, que esteve por aqui em março [2016], acha que “hoje os povos indígenas encaram riscos mais profundos que no momento da adoção da Constituição, em 1988”. Porque, como constatou ela, o atual governo deixava pendentes 20 demarcações de terras – nos últimos oito anos não houve avanços. Os assassinatos de líderes indígenas passaram de 92 em 2007 a 138 em 2014 (Estado, 2/9). E tudo pode piorar com as crises econômica e política. E com a decisão de extinguir órgãos de defesa dos direitos humanos, além das ameaças de reverter ratificações e declarações de terras indígenas, como Cachoeira Seca (PA), Piaçaguera (SP) e Pequizal do Naruvotu (MT). Para a ONU, a prioridade deve ser a conclusão do processo de demarcação, “abandonado há anos”. O abandono tem incentivado o aumento da violência, principalmente entre os guaranis-caiovás e terenas (MS), os araras e paracanãs (PA) e os caapores (MA).

As dificuldades neste momento são corroboradas por vários noticiários em jornais e televisões. Um deles, a Folha de S.Paulo (4/9), relata a situação de uma família de índios da região do Xingu que passou a receber Bolsa Família (R$ 300 mensais). Eles se mudaram para a cidade e logo concluíram que a importância recebida era insuficiente para o sustento familiar, comprar fogões velhos, pagar aluguel da casa mais do que modesta. A situação só não é pior porque o filho adolescente trabalha numa borracharia.

Há 105 mil famílias indígenas recebendo Bolsa Família, 76 mil incluídas nas áreas rurais e quase 30 mil em áreas urbanas. R$ 182,31 é o benefício médio. Diz o noticiário que as consequências são “devastadoras” – o que traz imediatamente à memória a notícia de estudo que há mais de 30 anos vinha sendo desenvolvido por pesquisadores da então Escola Paulista de Medicina. Eles comparavam o estado de saúde de índios que moravam isolados em suas aldeias com o de outros que haviam emigrado para as cidades. Entre os primeiros – como registravam suas fichas semestrais — não havia um único caso de hipertensão ou de doenças coronarianas, AVCs, diabetes, problemas pulmonares e outros; já entre os que trabalhavam como boias-frias perto de Bauru (SP), todos esses problemas estavam presentes e ainda os casos de invalidez ou morte eram frequentes.

O autor destas linhas decidiu acompanhar a equipe médica ao Parque Indígena do Xingu – na época, inteiramente isolado – e, ali, os exames corporais e de laboratório por que passava cada um dos índios que já tinham fichas de exames anteriores. Mais uma vez, não havia um só caso de doença entre populações de índios do parque, comparando com migrados. E o jornalista ficou impressionado, não apenas com as constatações médicas, mas com o modo de viver desses índios xinguanos: a não delegação de poder (o chefe não tem poder, não dá ordens, é o grande líder e conselheiro, mas não manda em ninguém; se tentasse, os outros se dobrariam de rir); homem não bate em mulher; todas as pessoas são livres e iguais; o homem planta e colhe, pesca, busca ervas medicinais e alimentícias; a mulher cozinha e cuida dos filhos – mas sem receber ordens, etc. O fascínio provocado por esse testemunho levou o jornalista a produzir desde a década de 1980 várias séries para a televisão, que levaram a surpreendentes índices de audiência.

Essa possibilidade de convivência social com outros fundamentos levava à pergunta: seria possível voltarmos a viver como índios? Certamente, não. Só discutir a hipótese provocava espanto ou desdém. Mas provavelmente seria possível incorporar muitas de suas práticas sociais e de relacionamentos.

Há algumas décadas, o médico e professor da Universidade Federal de São Paulo [Unifesp] Douglas Rodrigues, que estava na mencionada primeira viagem ao Xingu, já dizia que a hipertensão e a diabetes começavam a ser mais presentes, dadas as mudanças entre índios que antes viviam isolados, por causa dos contatos com habitantes de cidades e pela mudança nas dietas. A documentação para a TV comprovou a tese.

O tempo só acentuou as mudanças – e as análises. E tentativas de socorrer índios com programas sociais como o Bolsa Família e outros só alterou a rotina, acentuou a dependência de recursos financeiros, de programas assistenciais e médicos, necessidade de roupas, calçados, alimentos, etc.

O Estado brasileiro não tem política adequada para os grupos indígenas. Disfarçadamente, sem enunciá-la, sobrepõe uma política de aculturação, para substituir os fundamentos das culturas originárias – que criavam os modos de viver – e implantar a cultura branca. Os resultados são penosos, seja com a migração para cidades, seja com as transformações nas aldeias. Em lugar de aprendermos com eles alguns fundamentos de seus modos de viver originários, nós os levamos a absorver nossos modos de ser, a deixar de ser índios, sem terem vantagens, só prejuízos.

Na crise que vivemos, muitos livros, como o recém-publicado A Guerra da Água, de Harald Welzer, preveem que “caos e violência” causarão a próxima guerra mundial, em disputa pela água e outros recursos naturais. Sentiremos falta dos conhecimentos indígenas.

AUTORIA

Washington Novaes
Jornalista
E-mail: wlrnovaes@uol.com.br

Publicado originalmente no site O Estado de S. Paulo

Concurso UFSC: inscrições para 149 vagas de técnico-administrativo se inciam hoje

O Departamento de Desenvolvimento de Pessoas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) comunica a publicação de edital nº 15 do concurso público para a carreira Técnico-Administrativa em Educação. O edital oferta 149 vagas para diversos cargos, distribuídos entre os campi Florianópolis, Araranguá, Blumenau e Curitibanos.

A inscrição será efetuada somente via internet mediante o preenchimento de Requerimento de Inscrição constante no site http://015ddp2016.paginas.ufsc.br/, entre as 10 horas do dia 12 de julho e às 23h59 do dia 3 de agosto.

Edital e mais informações no site http://015ddp2016.paginas.ufsc.br/.

FONTE: Universidade Federal de Santa Catarina

Leguminosas que darão o que falar

No Ano Internacional das Leguminosas, o Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA) organiza com orgulho o que promete ser um acontecimento histórico, a Conferência Mundial sobre Feijão de Corda e Leguminosas em Grãos Pan-Africanas. A Conferência, que acontecerá em março em Zâmbia e reunirá especialistas do continente africano e de outras partes do mundo, será uma oportunidade para compartilhar ideias sobre sementes comestíveis como feijão de corda, feijões comuns, lentilhas, grão de bico e favas, entre outras variedades que agora gozam de seus 15 minutos de fama como superestrelas da nutrição.

As leguminosas podem ser pequenas, mas são um grande alimento. Os nutricionistas afirmam que seu perfil baixo em glicose e seu elevado conteúdo de fibras ajudam a prevenir e controlar as chamadas “doenças da civilização ocidental”, como obesidade e diabetes. E seu teor proteico oferece grandes possibilidades para ajudar o mundo a administrar suas práticas agropecuárias de forma mais sustentável, para que mais pessoas possam desfrutar de uma dieta melhor e mais variada sem representar uma pressão para os recursos naturais.

Antes de tudo, é preciso melhorar a disponibilidade de leguminosas. Em escala mundial, esta diminuiu mais de um terço nas quatro décadas posteriores a 1960, mas a produção aumentou de forma sustentada desde 2005, especialmente nos países em desenvolvimento. Os feijões encabeçam a tendência, marcada por um muito bem-vindo aumento, tanto da produção como do número de hectares plantados. E o mais importante é que,atualmente,quase um quinto das leguminosas é comercializado, quase três vezes mais do que nos anos 1980, um ritmo que supera amplamente o crescente comércio de cereais.

Além disso, embora a América do Norte seja uma potência exportadora, também o são África oriental e Myanmar (Birmânia). Mais da metade das exportações de leguminosas procede de países em desenvolvimento. Temos uma verdadeira oportunidade de aumentar essas fontes de proteínas. A boa notícia para milhões de famílias de pequenos agricultores é que o movimento pode se tratar mais de recuperar uma virtude tradicional do que uma revolução. Afinal, o prolífico viajante árabe Ibn Battuta escreveu sobre bambaras (uma leguminosa de grão nativa da África subsaariana) fritas em óleo de chia em uma viagem por Mali e a zona do Sahel, em 1352.

Os bolinhos de feijão, conhecidos na Nigéria como akara e muito comuns de se ver expostos à beira da estrada na África ocidental, são seus descendentes diretos e os irmãos mais velhos dos acarajés, declarados patrimônio cultural do Brasil, onde são comidos com camarão e seu nome iorubá sobreviveu ao terrível comércio triangular de escravos.

No IITA promovemos o feijão há décadas. Este mês, o Ministério da Agricultura de Suazilândia distribuiu entre agricultores locais cinco novas variedades de sementes desenvolvidas pelo Instituto, que amadurecem até 20% mais rápido e têm rendimento quatro vezes maior. Esse último êxito se deve, em grande parte, ao banco genético do IITA, que guarda para a comunidade internacional 15.112 amostras únicas de feijão procedentes de 88 países.

Por que tanta variedade de feijão? A pergunta deveria ser por que não há mais. Afinal, contém 25% de proteínas e é um excelente transportador de vitaminas e minerais, que se adapta a uma grande variedade de solos, tolera secas, bem como a sombra, cresce rápido e serve para combater a erosão ao verter nitrogênio no solo. Pode-se ingerir seu produto principal, e os animais aproveitam as folhas e os talos. Não se ouve falar muito desse grão porque o mundo não prestou atenção nele, mas está para ter outra oportunidade.

Porém, é uma planta que apresenta alguns problemas. Primeiro, sofre ataques em suas diferentes fases de crescimento, seja pelo vírus do mosaico, insetos da família da Gracillariodea, pelos temíveis carunchos que lutam com os fungos, ou pelas bactérias que consumem as sementes armazenadas. Os cientistas do IITA tentam combater esses problemas mediante o cultivo de sementes ou difundindo tecnologias inovadoras como as Sacas de Armazenamento Melhorado de Feijão de Purdue (PICS), que repelem os carunchos.

Ainda há muito a se aprender sobre a planta, por exemplo, como cultivá-la e como impulsionar sua participação no sistema alimentar. No Ano Internacional das Leguminosas seguramente se aprenderá muito sobre seu processamento, uma etapa crítica que já permite que muitos empresários nigerianos prosperem.Talvez, os grandes produtores de alimentos encontrem novas formas de moer leguminosas para obter produtos derivados dos grãos e produzir alimento mais saudável com um teor proteico mais completo.

No que se refere ao feijão, a planta pode servir para reduzir as ervas daninhas e fertilizar os cultivos comerciais. Também é colhido antes dos cereais, o que dá segurança alimentar e flexibilidade, pois os agricultores podem escolher deixar as plantas crescerem, reduzindo a produção de feijão, mas aumentando a de forragem.

O epicentro da planta, do ponto de vista de sua história genética e também na atualidade, é a África ocidental. A Nigéria é um grande produtor, mas também o principal importador dos países vizinhos. Níger é o principal exportador e sua capacidade para enfrentar as condições de seca e ajudar a combater a erosão do solo pode ser interessante em outras partes, como o corredor seco da América Central.

AUTORIA

Nteranya Sanginga
diretor-geral do Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA)

N.E.: Publicado originalmente no site da IPS.

Brasil: potência orgânica?

Quando pensamos nos benefícios do alimento orgânico logo nos vem à cabeça os aspectos relacionados à saúde humana, pelo simples fato de evitarmos o consumo de agrotóxicos. No entanto, as virtudes vão além, sendo a produção orgânica aliada direta da própria conservação da natureza.

Alimentos orgânicos são produzidos por meio de técnicas específicas, buscando otimizar recursos naturais e socioeconômicos, objetivar a sustentabilidade econômica e ecológica e minimizar o uso de energias não-renováveis, sem empregar materiais sintéticos, organismos modificados geneticamente ou radiações ionizantes. O objetivo final dos orgânicos é a saúde da população, mas também a manutenção do equilíbrio do planeta, já que essa é uma técnica que preserva nossos solos, águas e biodiversidade.

Outro benefício está no próprio processo de certificação dessa produção. Para ser certificado, o proprietário de terra necessita, antes de mais nada, seguir a legislação ambiental, o que inclui, por exemplo, ter a Reserva Legal e proteger as Áreas de Proteção Ambiental (APPs). Pode parecer absurdo listarmos esse item como vantagem, mas sabemos que a realidade do agronegócio ainda está longe do cumprimento da lei. Inclusive, este é um dos motivos que encarece o produto orgânico e limita muitos pequenos proprietários de terra a investirem nesse tipo de produção.

Soluções e opções existem. Em Sorocaba, no interior de São Paulo, um coletivo da sociedade civil, com o apoio da Secretaria Municipal do Meio Ambiente e parceria da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), criou o Grupo de Articulação Regional da Feira de Orgânicos de Sorocaba (Garfos) para a realização de uma feira de “transição agroecológica”, justamente para incentivar a produção de orgânicos de Piedade, município vizinho. Muitos produtores em Piedade, que é um dos principais abastecedores da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), começavam a trocar os insumos químicos pela agricultura orgânica, mas sem os recursos para realizar a certificação.

Com a feira, que acontece em um parque de Sorocaba todos os sábados, esses proprietários encontraram um local para comercializar diretamente sua produção e, assim, levantar os recursos para se certificarem. Para completar, a iniciativa trabalha ainda em todas as etapas, desde o apoio ao produtor convencional que quer realizar a transição, o suporte ao pequeno produtor que encontra resistência para a mudança, a valorização da agricultura familiar e o estímulo ao consumo de produtos saudáveis.

Tal experiência aponta também o importante papel do consumidor como incentivador da produção orgânica. Não que a responsabilidade seja apenas de quem consome, mas gerar demanda é sim uma saída bastante eficiente para se estimular novas relações de produção, consumo e modelos de negócio. Um exemplo bastante inovador, e inspirador, é o Instituo Chão, recentemente inaugurado no bairro da Vila Madalena, em São Paulo, definido pelos fundadores como “um espaço de convivência e economia social para experimentação de novas formas de relação”.

Na feira da associação sem fins lucrativos, que funciona de terça a domingo, os alimentos orgânicos são vendidos pelo preço do produtor, sem margem de lucro. Além do hortifruti, há ainda um café e mercearia. O preço chama atenção e já tem gerado procura, mas o mais interessante é a experiência socioeconômica e solidária, que elimina do preço final os custos operacionais do ponto de venda e convida os frequentadores-consumidores a colaborarem espontaneamente com doações para cobrir tais despesas, expostas com transparência num quadro negro. Vale a visita!

Agora, já que são tantos os benefícios da produção orgânica, porque o Brasil investe tão pouco nessa modalidade e continua a bater recordes no consumo de defensivos agrícolas? O motivo está no nosso modelo de agricultura pautada na monocultura e na produção de commodities. Esta é uma base importante para a balança comercial brasileira, tanto que durante a última década o país cresceu amparado na comercialização de alguns produtos primários, como a soja, o milho e o algodão. Mas é também um modelo econômico bastante questionável e que começa a dar sinais de enfraquecimento, com o recuo da cotação desses produtos no mercado internacional.

Quando se planta e produz numa escala grandiosa e com uma diversidade baixa, ainda por cima em áreas sem a presença adequada de florestas, naturalmente ocorrerá o empobrecimento do solo, o descontrole natural de pragas, a diminuição da população de polinizadores, como as abelhas, a desproteção dos recursos hídricos e mais uma série de fatores que constituem o cenário ideal para que o Brasil se mantenha na liderança do consumo mundial de defensivos agrícolas. Sem contar que estamos falando em commodities, não em alimentos para a população.

O uso desses produtos é tamanho que o país já ultrapassou, em 2009, a marca de 1 milhão de toneladas de defensivos por ano, de acordo com o estudo “Agrotóxicos no Brasil: um guia para ação em defesa da vida”, de 2011. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), nos últimos 40 anos o uso de defensivos agrícolas subiu 700%, frente ao aumento de 78% da área plantada no Brasil. Números que não devem ser comemorados e evidenciam o excesso de agrotóxico aplicado em nossas plantações.

Em abril deste ano, o Instituto Nacional do Câncer (Inca), órgão ligado ao Ministério da Saúde, divulgou nota de posicionamento em que pede a redução da utilização de agrotóxicos no país, alegando que as atuais práticas de uso de produtos químicos sintéticos na produção de alimentos oferecem risco à saúde, tanto das populações que estão expostas aos defensivos nas regiões de produção agrícola, como também de quem consome o produto final, em casa. Para se ter uma ideia do imbróglio, dos 50 produtos mais utilizados na agricultura brasileira, 22 são proibidos na União Europeia (UE).

Além dos problemas para a saúde, os agrotóxicos representam uma grave ameaça para o meio ambiente, principalmente para os recursos hídricos. A utilização dos defensivos agrícolas é a segunda maior causa de contaminação dos rios, ficando atrás apenas do esgoto doméstico. Por estas e outras é que a produção sustentável, como o cultivo orgânico, continua sendo um grande desafio para o setor agrícola.

A sociedade precisa se organizar e pressionar o governo para que reveja sua política de incentivo à produção de agrotóxicos, evite a liberação de substâncias que já são proibidas em outros países e invista na redução progressiva desses produtos. Afinal, ainda sonhamos que um dia viveremos num mundo sustentável, em que a agroecologia se multiplique e o Brasil se torne o maior celeiro de produtos orgânicos do mundo. É possível alimentar a humanidade com alimentos orgânicos!

AUTORIA

Marcia Hirota
Diretora-executiva da Fundação SOS Mata Atlântica

Marcos Palmeira
Ator e produtor orgânico

Publicado originalmente no site SOS Mata Atlântica.