Concurso da NASA tem prêmio de US$ 3 mil para projetos feitos por estudantes

Você sonha em conhecer a Agência Espacial Americana (NASA)? Então, comece a colocar no papel como você imagina que uma estação espacial do futuro seja. Até o dia 1º de março de 2017, a Agência recebe projetos de estudantes do mundo todo sobre o tema. O prêmio? US$ 3 mil e a chance de apresentar a sua ideia na reunião da Sociedade Espacial Norte-americana.

Para se inscrever, é preciso ter até 18 anos e estar matriculado em uma escola da rede pública ou particular. O aluno deve criar desenhos ou projetos que descrevam detalhes de estações espaciais futurísticas. Ensaios literários, jogos e até esportes em gravidade zero serão aceitos. As estações não precisam estar em um planeta ou lua, mas devem ser relativamente autossuficientes.

Todos os participantes recebem um certificado. Não há custos para se inscrever.

Para mais informações, visite a página do concurso (em inglês).

FONTE: Universia

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Uso de tecnologias é o que gera riqueza no meio rural

Não é mais a posse da terra nem o tamanho da fazenda o que diferencia fazendeiros pobres e ricos. Hoje, o que gera mais riqueza, e a concentra nas mãos de uma minoria dos fazendeiros, é a maior capacidade que esses fazendeiros têm de usar bem as tecnologias agrícolas disponíveis. A conclusão é do estudo sobre concentração da renda agrícola feito com base nos dados do Censo de 2006.

Os pesquisadores calcularam o que chamam de “função de produção”, para saber que influência teria, separadamente, a terra, o trabalho e conjunto de insumos tecnológicos (fertilizantes, defensivos, rações, energia, máquinas, etc.), no crescimento da renda bruta dos fazendeiros e, assim, ter uma idéia sobre o que influenciou na concentração da renda bruta observada entre os agricultores brasileiros.

Eles usaram as informações de 74 mil produtores, escolhidos ao acaso, e encontraram que, para cada 100% de aumento na renda bruta, o incremento no uso de insumos tecnológicos contribuiu com 67,86% desse aumento da renda. O aumento de trabalho contribuiu com 22,81% e o aumento da área explorada contribuiu com apenas 9,3% para o aumento da renda.

Isto equivale a dizer que se um produtor, que explora 10 hectares com uma renda de R$ 10 mil, resolver dobrar a área explorada e, em decorrência, dobrar a quantidade de trabalho, ele vai conseguir aumentar a sua renda em apenas 32,14% (9,3%, por conta da área, mais 22,81%, por conta do trabalho a mais), ou seja, em R$ 3.214,00. Para dobrar a renda, ele terá que dobrar também quantidade de insumos tecnológicos aplicados, nos mesmos 10 hectares, o que aumentará sua renda em mais R$ 6.786,00, totalizando os R$ 10 mil.

Para verificar, na realidade, o que aconteceu com todos os produtores analisados, os pesquisadores calcularam o rendimento obtido em cada hectare pelos produtores, nas diferentes classes de renda, conforme a tabela abaixo. Com os dados de renda bruta das fazendas, da área explorada e do rendimento, os pesquisadores conseguiram avaliar o que contribuiu mais (em percentagem, em vermelho) para a renda dos produtores, se a área explorada ou se o rendimento/uso de tecnologias.

O rendimento, que é a renda bruta dividida pela área explorada em cada fazenda, é uma medida de produtividade, pois informa quantos reais cada hectare produziu. É também uma forma de sinalizar, de maneira agregada, por hectare, o nível do uso de tecnologias em várias fazendas: já que não se podem somar toneladas de grãos, com litros de leite e metros cúbicos de madeira, por exemplo, é possível somar a renda dos grãos, com a renda do leite e a da madeira.

Os dados da tabela mostram que o rendimento — ou seja, a produção, ou seja, o nível do uso de insumos — cresceu do grupo de produtores de menor renda mensal (de 0 a 2 salários mínimos) para o de maior renda (mais de 200 salários mínimos). A área das fazendas também cresce na mesma direção.

Os cálculos mostram que, nas três primeiras classes de renda (até 200 salários mínimos) a renda bruta/hectare (leia-se uso de tecnologias) contribuiu mais (de 54% a 57,9%, em vermelho) para formação da renda dos produtores do que o aumento da área explorada (de 42% a 45,97%) nas propriedades.

A exceção é a última classe, de mais de 200 salários mínimos. Aí, se alcançou o uso mais intensivo de tecnologias e a maior renda por hectare. Conseguiu-se o máximo que a tecnologia pode fazer num hectare. Nesse caso, quando o produtor trabalha próximo do limite de produtividade da tecnologia, o aumento de mais hectares cultivados contribuiu mais (50,68%) para melhorar a renda bruta dos produtores, do que pode contribuir (49,32%) a tentativa de aumentar a já elevada produtividade de cada hectare.

Essas evidências sugerem que, num quadro de recursos limitados, a melhor estratégia para que fazendeiros de menores ganhos melhorem sua renda bruta consiste em concentrar os seus investimentos no sentido de extrair o melhor rendimento possível de cada hectare explorado.

Nesse caso, ao invés de usar uma grande área ou toda a propriedade, eles devem estabelecer um plano gradativo de incorporação produtiva de áreas da fazenda, de maneira a extrair um alto valor de produção de cada novo hectare incorporado, seja de uma pastagem ou de uma lavoura, até completar a exploração de toda a propriedade, ao fim de vários anos.

Esses dados indicam que a intensidade no uso de tecnologias é mais determinante para a geração de rendas para o produtor do que a quantidade de terras utilizadas. Em outras palavras, um produtor com menos terras, se for mais eficiente e intensivo no uso de tecnologias, pode ter renda maior do que um grande produtor. Como usar mais terras também significa usar mais trabalho, os dados sugerem que a quantidade de tecnologias usadas também é mais determinante na geração de rendas do que a quantidade de trabalho.

Também sugerem que foi a facilidade e eficiência em usar tecnologias disponíveis que possibilitou a 500 mil produtores aumentarem suas rendas a ponto de concentrar, em suas mãos, 87% da produção e da renda bruta agrícola nacional. O desafio que se coloca é saber o que impediu os demais produtores de seguirem o mesmo caminho de facilidade e eficiência na intensificação tecnológica.

AUTORIA

Renato Cruz Silva
Secretaria de Inteligência e Macroestratégia da Embrapa

Por que o índice de preço dos Alimentos da FAO caiu?

O índice de preço dos alimentos da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO – Food and Agriculture Organization) atingiu um máximo da série, no valor de 240,1 pontos, em fevereiro de 2011 e caiu para algo em torno de 149 pontos em janeiro e fevereiro de 2016 (considerando 100 = a média de 2002-2004). Agora em agosto de 2016 o índice subiu um pouco e chegou a 165,6 pontos em agosto de 2016. Mesmo assim, muito abaixo da média do ano de 2011.

Qual é o principal fator de flutuação do preço dos alimentos?

Não há dúvida de que o preço da comida varia com o aumento do preço da energia. Existe uma alta correlação entre o preço do petróleo e o preço dos alimentos. Quando o preço da energia sobe, em geral, aumenta também o preço dos alimentos e, quando cai, puxa o preço dos alimentos para baixo.

Ao longo do século XX o preço dos combustíveis fósseis caiu e rebaixou o preço médio da comida. Houve alguns momentos de inflação da energia e dos alimentos, como na década de 1970 (devido a guerra do Yom Kippur) e início dos anos de 1980 devido à guerra Irã-Iraque. Mas no final da década de 1990 os preços das commodities fósseis estavam em seus níveis mais baixos do século, assim como o índice de preços da FAO. Por exemplo, em janeiro de 2002, o preço nominal do barril do petróleo estava em US$ 19,6 e o índice de preços da FAO estava em 90 pontos.

Tudo mudou nos anos seguintes. Os preços do petróleo subiram e puxaram para cima o preço dos alimentos. O ano de 2008 foi de aumento generalizado dos combustíveis fósseis e da comida. A crise econômica de 2009 jogou os preços para baixo. A retomada de 2010 e 2011 voltou a jogar os preços para cima. O índice da FAO variou entre 240 pontos em fevereiro de 2011 e 217 pontos em abril de 2013. Mas desde de então o preço dos alimentos caiu acompanhando a queda do preço do petróleo.

Um relatório do NECSI (New England Complex Systems Institute) publicado em 2011, mostra que há uma correlação importante entre o aumento do preço dos alimentos, calculados pela FAO (agência da ONU para a agricultura) e a ocorrência de protestos em todo o mundo. Sempre que o índice da FAO sobe, ocorrem mais manifestações.

Agora em 2016, o preço do petróleo subiu entre janeiro e agosto de 2016, puxando o preço dos alimentos para cima. Mas, no geral, o preço dos combustíveis fósseis e dos alimentos encontram-se em patamares baixos.

Contudo, esta trégua não deve durar para sempre. O mais provável é que o preço do petróleo e dos alimentos volte a subir. E como mostra o relatório do NECSI, preços altos de energia e de comida levam à ocorrência de manifestações populares e períodos revolucionários.

AUTORIA

José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do Portal EcoDebate
Doutor em demografia
Professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE
Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal
E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Publicado originalmente no Portal EcoDebate

A falta que faz o saber indígena

Até a ONU {Organização das Nações Unidas], às voltas com tantos problemas que envolvem países inteiros, está preocupada com as ameaças aos povos indígenas no Brasil, que considera mais graves que os dos anos 1980 – diz um informe especial publicado no primeiro dia deste mês [setembro 2016]. Causas: demarcação de terras estagnada, enfraquecimento da Fundação Nacional do Índio (Funai) pelos últimos governos e iniciativas em andamento na atual administração que podem agravar o panorama. E os índios – que ocuparam todo o território nacional – hoje não chegam a 1 milhão de pessoas (0,47% do total brasileiro), segundo o IBGE: eram 24 povos com 896.917 pessoas em 2010, das quais 324 mil vivendo em cidades e 572.083 em áreas rurais.

A relatora da ONU para os direitos dos povos indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, que esteve por aqui em março [2016], acha que “hoje os povos indígenas encaram riscos mais profundos que no momento da adoção da Constituição, em 1988”. Porque, como constatou ela, o atual governo deixava pendentes 20 demarcações de terras – nos últimos oito anos não houve avanços. Os assassinatos de líderes indígenas passaram de 92 em 2007 a 138 em 2014 (Estado, 2/9). E tudo pode piorar com as crises econômica e política. E com a decisão de extinguir órgãos de defesa dos direitos humanos, além das ameaças de reverter ratificações e declarações de terras indígenas, como Cachoeira Seca (PA), Piaçaguera (SP) e Pequizal do Naruvotu (MT). Para a ONU, a prioridade deve ser a conclusão do processo de demarcação, “abandonado há anos”. O abandono tem incentivado o aumento da violência, principalmente entre os guaranis-caiovás e terenas (MS), os araras e paracanãs (PA) e os caapores (MA).

As dificuldades neste momento são corroboradas por vários noticiários em jornais e televisões. Um deles, a Folha de S.Paulo (4/9), relata a situação de uma família de índios da região do Xingu que passou a receber Bolsa Família (R$ 300 mensais). Eles se mudaram para a cidade e logo concluíram que a importância recebida era insuficiente para o sustento familiar, comprar fogões velhos, pagar aluguel da casa mais do que modesta. A situação só não é pior porque o filho adolescente trabalha numa borracharia.

Há 105 mil famílias indígenas recebendo Bolsa Família, 76 mil incluídas nas áreas rurais e quase 30 mil em áreas urbanas. R$ 182,31 é o benefício médio. Diz o noticiário que as consequências são “devastadoras” – o que traz imediatamente à memória a notícia de estudo que há mais de 30 anos vinha sendo desenvolvido por pesquisadores da então Escola Paulista de Medicina. Eles comparavam o estado de saúde de índios que moravam isolados em suas aldeias com o de outros que haviam emigrado para as cidades. Entre os primeiros – como registravam suas fichas semestrais — não havia um único caso de hipertensão ou de doenças coronarianas, AVCs, diabetes, problemas pulmonares e outros; já entre os que trabalhavam como boias-frias perto de Bauru (SP), todos esses problemas estavam presentes e ainda os casos de invalidez ou morte eram frequentes.

O autor destas linhas decidiu acompanhar a equipe médica ao Parque Indígena do Xingu – na época, inteiramente isolado – e, ali, os exames corporais e de laboratório por que passava cada um dos índios que já tinham fichas de exames anteriores. Mais uma vez, não havia um só caso de doença entre populações de índios do parque, comparando com migrados. E o jornalista ficou impressionado, não apenas com as constatações médicas, mas com o modo de viver desses índios xinguanos: a não delegação de poder (o chefe não tem poder, não dá ordens, é o grande líder e conselheiro, mas não manda em ninguém; se tentasse, os outros se dobrariam de rir); homem não bate em mulher; todas as pessoas são livres e iguais; o homem planta e colhe, pesca, busca ervas medicinais e alimentícias; a mulher cozinha e cuida dos filhos – mas sem receber ordens, etc. O fascínio provocado por esse testemunho levou o jornalista a produzir desde a década de 1980 várias séries para a televisão, que levaram a surpreendentes índices de audiência.

Essa possibilidade de convivência social com outros fundamentos levava à pergunta: seria possível voltarmos a viver como índios? Certamente, não. Só discutir a hipótese provocava espanto ou desdém. Mas provavelmente seria possível incorporar muitas de suas práticas sociais e de relacionamentos.

Há algumas décadas, o médico e professor da Universidade Federal de São Paulo [Unifesp] Douglas Rodrigues, que estava na mencionada primeira viagem ao Xingu, já dizia que a hipertensão e a diabetes começavam a ser mais presentes, dadas as mudanças entre índios que antes viviam isolados, por causa dos contatos com habitantes de cidades e pela mudança nas dietas. A documentação para a TV comprovou a tese.

O tempo só acentuou as mudanças – e as análises. E tentativas de socorrer índios com programas sociais como o Bolsa Família e outros só alterou a rotina, acentuou a dependência de recursos financeiros, de programas assistenciais e médicos, necessidade de roupas, calçados, alimentos, etc.

O Estado brasileiro não tem política adequada para os grupos indígenas. Disfarçadamente, sem enunciá-la, sobrepõe uma política de aculturação, para substituir os fundamentos das culturas originárias – que criavam os modos de viver – e implantar a cultura branca. Os resultados são penosos, seja com a migração para cidades, seja com as transformações nas aldeias. Em lugar de aprendermos com eles alguns fundamentos de seus modos de viver originários, nós os levamos a absorver nossos modos de ser, a deixar de ser índios, sem terem vantagens, só prejuízos.

Na crise que vivemos, muitos livros, como o recém-publicado A Guerra da Água, de Harald Welzer, preveem que “caos e violência” causarão a próxima guerra mundial, em disputa pela água e outros recursos naturais. Sentiremos falta dos conhecimentos indígenas.

AUTORIA

Washington Novaes
Jornalista
E-mail: wlrnovaes@uol.com.br

Publicado originalmente no site O Estado de S. Paulo

Concurso UFSC: inscrições para 149 vagas de técnico-administrativo se inciam hoje

O Departamento de Desenvolvimento de Pessoas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) comunica a publicação de edital nº 15 do concurso público para a carreira Técnico-Administrativa em Educação. O edital oferta 149 vagas para diversos cargos, distribuídos entre os campi Florianópolis, Araranguá, Blumenau e Curitibanos.

A inscrição será efetuada somente via internet mediante o preenchimento de Requerimento de Inscrição constante no site http://015ddp2016.paginas.ufsc.br/, entre as 10 horas do dia 12 de julho e às 23h59 do dia 3 de agosto.

Edital e mais informações no site http://015ddp2016.paginas.ufsc.br/.

FONTE: Universidade Federal de Santa Catarina

Leguminosas que darão o que falar

No Ano Internacional das Leguminosas, o Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA) organiza com orgulho o que promete ser um acontecimento histórico, a Conferência Mundial sobre Feijão de Corda e Leguminosas em Grãos Pan-Africanas. A Conferência, que acontecerá em março em Zâmbia e reunirá especialistas do continente africano e de outras partes do mundo, será uma oportunidade para compartilhar ideias sobre sementes comestíveis como feijão de corda, feijões comuns, lentilhas, grão de bico e favas, entre outras variedades que agora gozam de seus 15 minutos de fama como superestrelas da nutrição.

As leguminosas podem ser pequenas, mas são um grande alimento. Os nutricionistas afirmam que seu perfil baixo em glicose e seu elevado conteúdo de fibras ajudam a prevenir e controlar as chamadas “doenças da civilização ocidental”, como obesidade e diabetes. E seu teor proteico oferece grandes possibilidades para ajudar o mundo a administrar suas práticas agropecuárias de forma mais sustentável, para que mais pessoas possam desfrutar de uma dieta melhor e mais variada sem representar uma pressão para os recursos naturais.

Antes de tudo, é preciso melhorar a disponibilidade de leguminosas. Em escala mundial, esta diminuiu mais de um terço nas quatro décadas posteriores a 1960, mas a produção aumentou de forma sustentada desde 2005, especialmente nos países em desenvolvimento. Os feijões encabeçam a tendência, marcada por um muito bem-vindo aumento, tanto da produção como do número de hectares plantados. E o mais importante é que,atualmente,quase um quinto das leguminosas é comercializado, quase três vezes mais do que nos anos 1980, um ritmo que supera amplamente o crescente comércio de cereais.

Além disso, embora a América do Norte seja uma potência exportadora, também o são África oriental e Myanmar (Birmânia). Mais da metade das exportações de leguminosas procede de países em desenvolvimento. Temos uma verdadeira oportunidade de aumentar essas fontes de proteínas. A boa notícia para milhões de famílias de pequenos agricultores é que o movimento pode se tratar mais de recuperar uma virtude tradicional do que uma revolução. Afinal, o prolífico viajante árabe Ibn Battuta escreveu sobre bambaras (uma leguminosa de grão nativa da África subsaariana) fritas em óleo de chia em uma viagem por Mali e a zona do Sahel, em 1352.

Os bolinhos de feijão, conhecidos na Nigéria como akara e muito comuns de se ver expostos à beira da estrada na África ocidental, são seus descendentes diretos e os irmãos mais velhos dos acarajés, declarados patrimônio cultural do Brasil, onde são comidos com camarão e seu nome iorubá sobreviveu ao terrível comércio triangular de escravos.

No IITA promovemos o feijão há décadas. Este mês, o Ministério da Agricultura de Suazilândia distribuiu entre agricultores locais cinco novas variedades de sementes desenvolvidas pelo Instituto, que amadurecem até 20% mais rápido e têm rendimento quatro vezes maior. Esse último êxito se deve, em grande parte, ao banco genético do IITA, que guarda para a comunidade internacional 15.112 amostras únicas de feijão procedentes de 88 países.

Por que tanta variedade de feijão? A pergunta deveria ser por que não há mais. Afinal, contém 25% de proteínas e é um excelente transportador de vitaminas e minerais, que se adapta a uma grande variedade de solos, tolera secas, bem como a sombra, cresce rápido e serve para combater a erosão ao verter nitrogênio no solo. Pode-se ingerir seu produto principal, e os animais aproveitam as folhas e os talos. Não se ouve falar muito desse grão porque o mundo não prestou atenção nele, mas está para ter outra oportunidade.

Porém, é uma planta que apresenta alguns problemas. Primeiro, sofre ataques em suas diferentes fases de crescimento, seja pelo vírus do mosaico, insetos da família da Gracillariodea, pelos temíveis carunchos que lutam com os fungos, ou pelas bactérias que consumem as sementes armazenadas. Os cientistas do IITA tentam combater esses problemas mediante o cultivo de sementes ou difundindo tecnologias inovadoras como as Sacas de Armazenamento Melhorado de Feijão de Purdue (PICS), que repelem os carunchos.

Ainda há muito a se aprender sobre a planta, por exemplo, como cultivá-la e como impulsionar sua participação no sistema alimentar. No Ano Internacional das Leguminosas seguramente se aprenderá muito sobre seu processamento, uma etapa crítica que já permite que muitos empresários nigerianos prosperem.Talvez, os grandes produtores de alimentos encontrem novas formas de moer leguminosas para obter produtos derivados dos grãos e produzir alimento mais saudável com um teor proteico mais completo.

No que se refere ao feijão, a planta pode servir para reduzir as ervas daninhas e fertilizar os cultivos comerciais. Também é colhido antes dos cereais, o que dá segurança alimentar e flexibilidade, pois os agricultores podem escolher deixar as plantas crescerem, reduzindo a produção de feijão, mas aumentando a de forragem.

O epicentro da planta, do ponto de vista de sua história genética e também na atualidade, é a África ocidental. A Nigéria é um grande produtor, mas também o principal importador dos países vizinhos. Níger é o principal exportador e sua capacidade para enfrentar as condições de seca e ajudar a combater a erosão do solo pode ser interessante em outras partes, como o corredor seco da América Central.

AUTORIA

Nteranya Sanginga
diretor-geral do Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA)

N.E.: Publicado originalmente no site da IPS.

Brasil: potência orgânica?

Quando pensamos nos benefícios do alimento orgânico logo nos vem à cabeça os aspectos relacionados à saúde humana, pelo simples fato de evitarmos o consumo de agrotóxicos. No entanto, as virtudes vão além, sendo a produção orgânica aliada direta da própria conservação da natureza.

Alimentos orgânicos são produzidos por meio de técnicas específicas, buscando otimizar recursos naturais e socioeconômicos, objetivar a sustentabilidade econômica e ecológica e minimizar o uso de energias não-renováveis, sem empregar materiais sintéticos, organismos modificados geneticamente ou radiações ionizantes. O objetivo final dos orgânicos é a saúde da população, mas também a manutenção do equilíbrio do planeta, já que essa é uma técnica que preserva nossos solos, águas e biodiversidade.

Outro benefício está no próprio processo de certificação dessa produção. Para ser certificado, o proprietário de terra necessita, antes de mais nada, seguir a legislação ambiental, o que inclui, por exemplo, ter a Reserva Legal e proteger as Áreas de Proteção Ambiental (APPs). Pode parecer absurdo listarmos esse item como vantagem, mas sabemos que a realidade do agronegócio ainda está longe do cumprimento da lei. Inclusive, este é um dos motivos que encarece o produto orgânico e limita muitos pequenos proprietários de terra a investirem nesse tipo de produção.

Soluções e opções existem. Em Sorocaba, no interior de São Paulo, um coletivo da sociedade civil, com o apoio da Secretaria Municipal do Meio Ambiente e parceria da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), criou o Grupo de Articulação Regional da Feira de Orgânicos de Sorocaba (Garfos) para a realização de uma feira de “transição agroecológica”, justamente para incentivar a produção de orgânicos de Piedade, município vizinho. Muitos produtores em Piedade, que é um dos principais abastecedores da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), começavam a trocar os insumos químicos pela agricultura orgânica, mas sem os recursos para realizar a certificação.

Com a feira, que acontece em um parque de Sorocaba todos os sábados, esses proprietários encontraram um local para comercializar diretamente sua produção e, assim, levantar os recursos para se certificarem. Para completar, a iniciativa trabalha ainda em todas as etapas, desde o apoio ao produtor convencional que quer realizar a transição, o suporte ao pequeno produtor que encontra resistência para a mudança, a valorização da agricultura familiar e o estímulo ao consumo de produtos saudáveis.

Tal experiência aponta também o importante papel do consumidor como incentivador da produção orgânica. Não que a responsabilidade seja apenas de quem consome, mas gerar demanda é sim uma saída bastante eficiente para se estimular novas relações de produção, consumo e modelos de negócio. Um exemplo bastante inovador, e inspirador, é o Instituo Chão, recentemente inaugurado no bairro da Vila Madalena, em São Paulo, definido pelos fundadores como “um espaço de convivência e economia social para experimentação de novas formas de relação”.

Na feira da associação sem fins lucrativos, que funciona de terça a domingo, os alimentos orgânicos são vendidos pelo preço do produtor, sem margem de lucro. Além do hortifruti, há ainda um café e mercearia. O preço chama atenção e já tem gerado procura, mas o mais interessante é a experiência socioeconômica e solidária, que elimina do preço final os custos operacionais do ponto de venda e convida os frequentadores-consumidores a colaborarem espontaneamente com doações para cobrir tais despesas, expostas com transparência num quadro negro. Vale a visita!

Agora, já que são tantos os benefícios da produção orgânica, porque o Brasil investe tão pouco nessa modalidade e continua a bater recordes no consumo de defensivos agrícolas? O motivo está no nosso modelo de agricultura pautada na monocultura e na produção de commodities. Esta é uma base importante para a balança comercial brasileira, tanto que durante a última década o país cresceu amparado na comercialização de alguns produtos primários, como a soja, o milho e o algodão. Mas é também um modelo econômico bastante questionável e que começa a dar sinais de enfraquecimento, com o recuo da cotação desses produtos no mercado internacional.

Quando se planta e produz numa escala grandiosa e com uma diversidade baixa, ainda por cima em áreas sem a presença adequada de florestas, naturalmente ocorrerá o empobrecimento do solo, o descontrole natural de pragas, a diminuição da população de polinizadores, como as abelhas, a desproteção dos recursos hídricos e mais uma série de fatores que constituem o cenário ideal para que o Brasil se mantenha na liderança do consumo mundial de defensivos agrícolas. Sem contar que estamos falando em commodities, não em alimentos para a população.

O uso desses produtos é tamanho que o país já ultrapassou, em 2009, a marca de 1 milhão de toneladas de defensivos por ano, de acordo com o estudo “Agrotóxicos no Brasil: um guia para ação em defesa da vida”, de 2011. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), nos últimos 40 anos o uso de defensivos agrícolas subiu 700%, frente ao aumento de 78% da área plantada no Brasil. Números que não devem ser comemorados e evidenciam o excesso de agrotóxico aplicado em nossas plantações.

Em abril deste ano, o Instituto Nacional do Câncer (Inca), órgão ligado ao Ministério da Saúde, divulgou nota de posicionamento em que pede a redução da utilização de agrotóxicos no país, alegando que as atuais práticas de uso de produtos químicos sintéticos na produção de alimentos oferecem risco à saúde, tanto das populações que estão expostas aos defensivos nas regiões de produção agrícola, como também de quem consome o produto final, em casa. Para se ter uma ideia do imbróglio, dos 50 produtos mais utilizados na agricultura brasileira, 22 são proibidos na União Europeia (UE).

Além dos problemas para a saúde, os agrotóxicos representam uma grave ameaça para o meio ambiente, principalmente para os recursos hídricos. A utilização dos defensivos agrícolas é a segunda maior causa de contaminação dos rios, ficando atrás apenas do esgoto doméstico. Por estas e outras é que a produção sustentável, como o cultivo orgânico, continua sendo um grande desafio para o setor agrícola.

A sociedade precisa se organizar e pressionar o governo para que reveja sua política de incentivo à produção de agrotóxicos, evite a liberação de substâncias que já são proibidas em outros países e invista na redução progressiva desses produtos. Afinal, ainda sonhamos que um dia viveremos num mundo sustentável, em que a agroecologia se multiplique e o Brasil se torne o maior celeiro de produtos orgânicos do mundo. É possível alimentar a humanidade com alimentos orgânicos!

AUTORIA

Marcia Hirota
Diretora-executiva da Fundação SOS Mata Atlântica

Marcos Palmeira
Ator e produtor orgânico

Publicado originalmente no site SOS Mata Atlântica.

Por que o Brasil deve se preocupar com acordos de livre comércio entre outros países?

O virtual colapso da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) e o ritmo lento das discussões em torno de disciplinas como serviços e propriedade intelectual contribuíram para estimular uma profusão de acordos comerciais em vários cantos do globo. Afinal, dizem seus defensores, se o arranjo multilateral não vingou, então acordos bilaterais e plurilaterais têm que dar conta do recado da liberalização comercial.

Dois dos principais acordos ora em discussão, o Trans-Pacific Partnership (TPP) e o Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP), merecem especial atenção em razão do porte das economias envolvidas e da sua declarada pretensão de ocupar o espaço não preenchido pela OMC de estabelecer bases e padrões conceituais de governança e de abrangência da agenda do comércio.

O TPP envolve Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Cingapura, Estados Unidos, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru e Vietnã. Já o TTIP envolve os Estados Unidos e a União Europeia (UE). Ambos os acordos se encontram em fase de negociação, sendo que o TPP já está próximo de ser concluído.

Os acordos plurilaterais em discussão têm potenciais impactos nas perspectivas do crescimento do Brasil.

Um observador apressado veria pouca relevância nesses acordos, já que as barreiras tarifárias entre os países envolvidos já são bastante baixas. Mas um olhar mais cuidadoso mostraria que o grande diferencial desses acordos está em temas como compras governamentais, investimentos, mercado de trabalho, meio ambiente, competição e, sobretudo, em serviços e propriedade intelectual, que são áreas cada vez mais críticas para os destinos das economias no século XXI.

De fato, quando calculado em valor adicionado, os serviços já representam 54% do comércio global, mas estima-se que serão 75% até 2025. O mercado mundial do segmento de serviços comerciais, por exemplo, é de US$ 4 trilhões, mas estima-se que chegará US$ 9 trilhões nos próximos 10 anos.

Para os EUA e a União Europeia, a liberalização ampla do comércio de serviços faz sentido, já que ambos têm grandes vantagens comparativas e competitivas no setor. Em 2011, os EUA e a União Europeia responderam por 60% do comércio global de serviços e tinham presença folgada em segmentos como royalties e licenças, serviços financeiros, seguros, tecnologia da informação, serviços técnicos especializados dentre outros de alto valor adicionado.

Mas é na geração de empregos que se espera que o aumento do comércio de serviços venha a fazer maior diferença para eles. Na União Europeia, por exemplo, dois de cada dez empregos estão diretamente associados à produção e exportação de serviços.

Os acordos têm cláusulas que requerem especial atenção. Uma delas refere-se ao Investor-State Dispute Settlement, que seria uma espécie de tribunal fora do marco legal dos países nos quais empresas estrangeiras poderão processar governos por suposta violação dos tratados que venha a influir nas expectativas de realização de negócios e lucros.

Outra é a ampla liberalização de mercados com grande potencial de expansão como o e-commerce, serviços de courier, entretenimento, educação e serviços médicos. A criação de listas negativas de serviços em que, à exceção dos itens discriminados por cada país, todos os demais seriam governados pelas cláusulas dos acordos, também requer atenção.

Vários economistas têm levantado questões acerca dos impactos das cláusulas do TPP associadas à propriedade intelectual. Argumentam que, por serem excessivamente restritivas para atender a interesses de grandes corporações, os acordos reduzirão, ao invés de aumentar, a eficiência e a competição em vários mercados, com impactos negativos no acesso ao conhecimento, tecnologias e inovações por parte dos países menos desenvolvidos.

Ainda que haja apelo pela abertura ampla dos mercados de serviços devido aos seus efeitos imediatos no bem-estar das pessoas e no acesso a serviços comerciais mais competitivos, há, também, outros aspectos que devem ser considerados.

Países que, como o Brasil, têm população muito numerosa, uma enorme agenda de desenvolvimento ainda por ser satisfeita e que estão desesperados para escapar da armadilha do crescimento em que estão metidos não deveriam abrir mão de encorajar e estimular atividades econômicas em que ainda seja possível aliar crescimento do emprego com aumento da produtividade.

Esse é precisamente o caso dos serviços, notadamente através de seus efeitos diretos e indiretos no desenvolvimento de inovações tecnológicas e de novos modelos de negócios e no aumento da densidade industrial e da diversificação da produção e das exportações.

Obviamente, ninguém em sã consciência pode discordar da necessidade de se proteger a propriedade intelectual ou da importância de se aumentar a eficiência dos mercados. Mas também é preciso que se reconheça a necessidade de se acelerar a disseminação e a absorção do conhecimento e a relevância dos serviços para o desenvolvimento econômico.

Embora o Brasil esteja de fora das negociações, os acordos plurilaterais em discussão também são da nossa conta devido aos seus inegáveis potenciais impactos nas perspectivas do nosso crescimento.

Nossos desafios são muitos e incluem encontrar caminhos que compatibilizem os benefícios de curto com as necessidades de longo prazo sem cair na tentação de abraçar o velho protecionismo. Em vez de nos lamentar, é preciso agir. Acima de tudo, é preciso que se busque influenciar nas discussões internacionais para que se leve em consideração as várias dimensões do comércio e do conhecimento para o desenvolvimento econômico.

De outro lado, é preciso correr para se levar adiante políticas e reformas que criem as condições para que os serviços se modernizem e a produção e disseminação do conhecimento avancem fomentando, desta forma, bases sólidas para que o país possa conquistar e não mendigar seu lugar ao sol.

Publicado originalmente no jornal Valor Econômico em 1º/7/2015.

AUTORIA

Jorge Saba Arbache Filho
Professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB)
Doutor em PhD in Economics pela University of Kent

Identificação animal como estratégia de defesa sanitária

A globalização resultou no aumento da comercialização internacional de animais e de seus subprodutos. Porém, as doenças infecciosas são uma das principais barreiras para a expansão deste comércio. Todavia, para o Brasil se manter como o primeiro exportador mundial de carne bovina é necessário reforçar as medidas de controle sanitário, sendo o principal desafio manter e expandir a área livre de febre aftosa, especialmente porque outros países da América do Sul ainda são endêmicos ou apresentam surtos esporádicos da doença. Em países como o Brasil, cuja produção é caracterizada por deslocamentos entre propriedades e com distintos sistemas de criação, a identificação individual é importante para assegurar a rastreabilidade do processo produtivo. Para o produtor, antes mesmo da rastreabilidade em si, a identificação permite otimizar o controle interno da atividade pecuária, facilitando a gestão da propriedade rural.

Concomitante ao crescimento da pecuária brasileira, o mercado global está cada vez mais atento tanto à qualidade da carne, como à inocuidade do produto final, à eficiência do sistema de produção, bem como à atenção ao bem-estar animal. Essas demandas foram desencadeadas pela exigência da sustentabilidade da cadeia produtiva, e foram intensificadas com a descoberta da doença da vaca louca em 1996, na Europa, além do constante risco da ocorrência de febre aftosa. Em adição, o mercado consumidor passou a exigir o rastreamento do alimento na cadeia produtiva, além da transparência no processo. Assim, é estratégico para o País adotar ações padronizadas que resultem em alimentos seguros, com garantia de origem, e associados à sustentabilidade produtiva.

Para garantir a rastreabilidade de toda a vida do animal até a comercialização do produto final, qualquer sistema deve passar pelo controle individual. A identificação é a chave para o registro de todas as ocorrências e práticas de manejo. É um procedimento essencial que possibilita a avaliação do desempenho do rebanho e sua higidez sanitária, o que contribui para a tomada de decisões administrativas. Além disso, atende às normas e aos procedimentos em boas práticas agropecuárias, para garantir ao mercado alimentos de qualidade e livres de resíduos e contaminantes de qualquer natureza.

Destaca-se, ainda, seu papel no sucesso das ações de defesa sanitária animal que, dependendo do sistema de identificação utilizado, pode fornecer informações relevantes em tempo real. Outra vantagem é que a adoção de um sistema de rastreio eficiente atende às exigências de comércio internacional e condições sanitárias regulamentadas pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE).

Como exemplo desses benefícios, a identificação individual dos animais localizados na fronteira entre Paraguai e Mato Grosso do Sul resultou no reconhecimento do local como zona livre de febre aftosa com vacinação pela OIE, quatro anos após a implementação da Zona de Alta Vigilância (ZAV) nesta fronteira. Destaca-se que o Estado possui doze municípios na linha de fronteira com o Paraguai, o que corresponde a 30% do território e 17% de seus bovinos.

Entre os sistemas de identificação animal, a tatuagem na face interna do pavilhão auricular, marcas a ferro quente e brincos numerados são os mais utilizados. No entanto, a diversidade de raças e manejos, a tatuagem e marcação a ferro em animais de pelagem escura ou excesso de pelos, e os erros na transcrição manual de dados (associados ao labor e pouca eficiência) motivou a procura por métodos mais eficientes.

Em relação à marcação a ferro quente, além do desconforto causado ao animal, pode danificar o couro se não atendidas as recomendações da Lei nº 4.714, de 29 de junho de 1965, com consequente redução do valor desse. No caso dos brincos, a perda anual varia entre 3% e 15%, de acordo com a raça e o tipo de ambiente, o que favorece erros no processo de rastreabilidade e perdas para o produtor. O brinco pode causar ainda um processo traumático e lesões da pele, o que propicia a instalação de infecções e bicheiras.

Por outro lado, a utilização de dispositivos eletrônicos como transponders (RFID), balanças eletrônicas, GPS, leitores de códigos de barras, sensores de biometria, entre outros, é sem dúvida a forma mais segura e eficiente para identificação de animais, pois elimina erros na transcrição manual de dados, bem como a necessidade de contenção do animal.

Com informações sobre as ocorrências relevantes ao longo da vida do animal como vacinas, regime alimentar, variação de peso, indícios de febre, ocorrência de cio e parto, entre outras, é possível rastrear a origem de problemas ao longo da cadeia de produção, além de permitir o monitoramento da saúde do animal, ajustar o manejo, além de embasar com segurança a tomada de decisão quanto a compra e venda de animais, e estimar a previsão de lucros, por exemplo. Assim, é possível atingir o efetivo controle da produção desde o nascimento dos animais até o fornecimento do produto final na gôndola, melhorando a produtividade e a eficiência do processo produtivo.

Independente do método, a identificação individual de animais contribui de forma inconteste com informações para estratégias de combate a doenças, monitoramento da eficiência de vacinas, consolidação de sistemas de informação e vigilância nos âmbitos nacional e internacional, redução de inconsistências de identificação tanto durante a inspeção quanto em diagnóstico clínico e laboratorial, e otimização do efetivo controle de movimentação animal, seus produtos e subprodutos. É, portanto, elemento essencial em qualquer estratégia de segurança e defesa sanitária animal.

AUTORIA

Thaís Basso Amaral
Vanessa Felipe de Souza
Pesquisadoras da Embrapa Gado de Corte

O uso intensivo e sustentável dos recursos naturais

“Intensificação sustentável.” Este é um conceito que cada vez mais ganhará notoriedade. A razão é simples. A população mundial seguirá crescendo, mais urbanizada e exigente, em um planeta de recursos naturais finitos. Vai exigir mais alimentos, energia e bem-estar, o que requer uso mais eficiente das riquezas da natureza – e será preciso conservar tais bens para as gerações futuras. “Fechar essa conta” define a intensificação sustentável.

O estudo Visão 2014-2034: o futuro do desenvolvimento tecnológico da agricultura brasileira, lançado pela Embrapa em 2014, sinaliza que, por volta de 2030, poucos países vão concentrar boa parcela da população e da renda. A população mundial, gradativamente se tornará mais idosa. A renda per capita em importantes países consumidores irá se elevar, assim como a demanda por proteínas nobres como leite, carne, ovos, peixes, frutas, verduras e legumes.

Em duas décadas, deve aumentar em 3 bilhões o número de consumidores do planeta e a região da Ásia-Pacífico concentrará cerca de 60% da classe média mundial. Tão significativo quanto o crescimento da população e a mudança das exigências e preferências dos consumidores é o fato de que tal cenário deverá ser observado mais em regiões onde é baixa a possibilidade de se ampliar a produção de alimentos. Há carência de terras agricultáveis e de recursos essenciais, principalmente água, como nas imensas áreas desérticas e semiáridas da África e da Ásia.

No mundo, as áreas que poderiam ser utilizadas para a expansão da fronteira agrícola estão na Rússia e no Leste Europeu. Mas seu aproveitamento é limitado em razão do clima e da necessidade de grandes investimentos, de difícil realização nas próximas décadas. O Canadá, país onde há terras e boa infraestrutura de suporte à produção agrícola, convive com sérias limitações climáticas.

A América do Sul é a região que dispõe de condições de clima e recursos naturais mais favoráveis para a expansão sustentável da atividade agrícola, especialmente em sua faixa tropical e subtropical. Potencial semelhante existe em partes da África Subsaariana, embora o aproveitamento nessa região dependa de substantivas mudanças políticas e estruturais, uma tarefa para muitas gerações.

Repousa, portanto, sobre a América Tropical, a grande responsabilidade de alimentar a população e, ao mesmo tempo, ampliar a ação de prover alimentos para um mundo que seguirá crescendo e demandando em quantidade, diversidade e alto padrão de qualidade. Fazê-lo, de forma sustentável, demandará sofisticação tecnológica que amplie a eficiência de uso dos recursos ambientais — especialmente água, solo e biodiversidade — e garanta serviços ecossistêmicos adequados, como reciclagem de resíduos, recomposição das reservas hídricas, melhoria da atmosfera, dentre outros.

O Brasil lidera um grande esforço de geração e uso de tecnologias “poupa-recursos”, de baixa emissão de carbono, capaz de promover a expansão sustentável da produção agrícola. Expansão baseada mais em ganhos na produtividade da terra, em sintonia com o novo Código Florestal. O Plano ABC – “Agricultura de Baixa Emissão de Carbono” é uma arrojada política pública que visa ampliar a recuperação de pastagens degradadas, a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), o sistema de plantio direto (SPD), a fixação biológica de nitrogênio (FBN), florestas plantadas e o tratamento de dejetos animais.

Por isso, chama a atenção do mundo o potencial de intensificação sustentável da agricultura brasileira. Uma grande extensão de nossas áreas agrícolas pode ser utilizada de maneira segura 365 dias ao ano, produzindo, no mesmo espaço, grãos, proteína animal, fibras e bioenergia. E, diferentemente de qualquer grande produtor de alimentos no mundo, o Brasil mantém 62% do seu território com cobertura vegetal natural.

Esse protagonismo e as oportunidades de geração e disseminação de tecnologias capazes de promover a expansão sustentável da produção agropecuária dominarão as discussões de especialistas nacionais e internacionais no primeiro Congresso Mundial sobre Integração Lavoura-Pecuária-Floresta. O evento, organizado pela Embrapa e instituições parceiras do Brasil e do exterior, acontecerá a partir desta segunda-feira [13/07/15], no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília.

Este fórum terá como pano de fundo a ambição de se garantir a segurança alimentar e nutricional no futuro. É uma grande oportunidade para que o Brasil se apresente como nação preparada a contribuir por duas vias complementares: pela via da vocação natural, de país grande e diverso, com pujante riqueza ambiental; e pela via da competência, amparada em sua história de pesquisa e inovação agropecuária consolidada nas últimas quatro décadas.

AUTORIA

Maurício Antônio Lopes
Presidente da Embrapa

Artigo publicado na edição do dia 12 de julho de 2015 do jornal Correio Braziliense

A semente da vida está em nosso solo

A FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) denominou o ano de 2015 como Ano Internacional do Solo. Diante disso, as Instituições de Ensino e de Pesquisa do Brasil voltaram sua atenção para este imenso patrimônio que é o nosso solo.

O Instituto Agronômico (IAC) adotou o tema: “A semente da vida está em nosso solo”, uma feliz escolha para a Instituição Agronômica pioneira em pesquisas sobre solos no Brasil. O IAC foi criado pelo Imperador D. Pedro II em 1887 em virtude de que, naquela época, a região do Estado de São Paulo enfrentava sérios problemas com a exaustão da fertilidade dos solos, posto que o Brasil não tinha acesso a fertilizantes (A primeira referência à importação de fertilizantes é de 1895, realizada por Pereira Barreto).

Entre os anos de 1876 e 1883 foram plantados 105 milhões de pés de café na região de Campinas (SP), fazendo com que a região produzisse, em 1886, o equivalente a 15% de todo o café produzido no Estado. O cultivo continuo de café sem o manejo adequado estava exaurindo a fertilidade dos solos.

O primeiro diretor do Instituto Agronômico foi o alemão Franz Wilhelm Dafert, discípulo de Justus von Liebig (Lei do Mínimo), qual teve a difícil missão de mudar paradigmas e implementar ações com embasamento técnico cientifico junto aos produtores para assegurar que os solos fossem manejados de forma correta e possibilitassem cultivos sucessivos na mesma área, ou seja, foi o responsável pela ação pioneira de sustentabilidade em solos brasileiros, merecendo destaque também a visão empreendedora e contribuição de D. Pedro II com a implantação de Institutos de Pesquisas Agronômicas em diversas regiões do Brasil e da criação da primeira Escola de Agronomia do Brasil, na Bahia, em 1877.

O Instituto Agronômico e a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (fundada em 1901), são pioneiros em estudos dos solos em todas as suas vertentes, e em conjunto com a EMBAPA, e as Instituições estaduais de ensino e pesquisas, prestam valiosa colaboração à sociedade brasileira e mundial, já que os solos são a base da nossa produção agrícola. O Brasil tem hoje uma produção agrícola expressiva: neste ano, está ultrapassando a barreira de produção de 200 milhões de toneladas de grãos, fazendo parte de um restrito grupo de países que produzem 1 tonelada de grãos por ano por habitante.

Oportuna a escolha do tema: A semente da vida está em nosso solo, por uma instituição que já lançou 1020 cultivares de plantas das mais variadas espécies e realiza levantamentos detalhados de solos, tem laboratórios de análises químicas e física de solos, de análises de resíduos, todos com ISO 17025, sendo certamente uma das instituições brasileiras que mais contribui para a paz, produzindo alimentos e combatendo a fome. E como já disse John Boyd Orr, primeiro Diretor Geral da FAO, “Não se constrói a paz em estômagos vazios”.

Privilegiado o Estado que tem uma Instituição do porte do Instituto Agronômico, que implantado em Chão Fecundo (Título do livro comemorativo do Centenário da Instituição), continua lançando sementes a mãos cheias nos solos brasileiros, e como Instituição Pública tem contribuído de forma significativa para o desenvolvimento do País e qualidade de vida de todos nós.

Parabéns aos Pesquisadores e Funcionários, parabéns Instituto Agronômico por seus 128 anos em pesquisas que vão além dos horizontes do solo.

AUTORIA

Antonio Roque Dechen
Professor Titular do Departamento de Ciência do Solo da Esalq/USP
Presidente da Fundação Agrisus
Presidente do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS)
Membro do Conselho do Agronegócio (COSAG-FIESP)
Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de 1975 a 1981

Vale a pena investir em touros geneticamente superiores?

Considerando-se um único acasalamento, reprodutor e matriz têm o mesmo valor, uma vez que cada um contribui com a metade do seu genoma para a formação de um novo indivíduo. No entanto, ao longo da vida reprodutiva, enquanto a vaca pode deixar na melhor das hipóteses até oito-dez filhos, o touro pode ser pai de dezenas, centenas ou até de milhares. Além disto, por demandar menor número de animais para reposição, a pressão de seleção de touros é muito maior do que a de fêmeas. Por estas razões, pode-se demonstrar que o touro proporciona de 84% a 88% do ganho genético de todo o rebanho, para relações touro:vaca de 1:20 e 1:40, respectivamente.

Desta forma, atendidas as boas práticas de criação no que se refere à gestão do negócio, alimentação, saúde e manejo das pastagens e dos animais, a escolha dos reprodutores deve ser considerada uma decisão determinante do sucesso do sistema de produção devendo, por isto, ser tomada criteriosamente.

Estimativa do valor econômico do touro: rebanhos de seleção e rebanhos comerciais

O valor de um touro melhorador pode ser compreendido, de uma maneira simples e prática, pela análise da variável peso a desmama, que além de apresentar parâmetros genéticos acurados, pela ampla aplicação de programas de melhoramento, dispõe de um valor econômico bem estabelecido pelo mercado.

A partir dos dados da avaliação genética da raça Nelore lançada pelo Programa Geneplus-Embrapa em novembro de 2014 – www.geneplus.com.br -, estimou-se em 3,9 kg a DEP (Diferença Esperada na Progênie) média para o efeito direto a desmama, considerando-se 157.493 machos superiores de cinco safras (2007 a 2011) possivelmente ativos, reprodutivamente, em 2014. Por outro lado, a partir de dados de cerca de 100 mil animais comercializados, de janeiro a dezembro deste ano, em Campo Grande (MS), pela Correa da Costa Leilões Rurais (Barbosa, N., comunicação pessoal), estimou-se em R$ 5,00 o valor do quilograma de bezerro desmamado, média de machos e fêmeas – www.correadacosta.com.br.

Assim, com base na definição de DEP, o retorno econômico de cada filho de um touro superior pode ser estimado em R$19,50 (3,9 kg x R$ 5,00), quando comparado aos filhos dos demais touros no âmbito do Programa Geneplus-Embrapa.

Observa-se, no entanto, que a média do peso a desmama nos plantéis de seleção é 198 kg, enquanto que nos rebanhos comerciais é estimada em 155 kg, quando se corrigem os dados para a idade padrão de 240 dias. O impacto total de um touro selecionado, quando usado em rebanhos comerciais, portanto, deve levar em conta esta “defasagem” entre os plantéis de seleção e os rebanhos comerciais.

Numa abordagem mais conservadora que aquela apresentada em artigos anteriores sobre este tema (Veja Fontes, ao final do artigo), considera-se que dessa diferença total de 43 kg (198-155) parte é ambiental, ou de manejo, e parte é devida à “defasagem genética” dos rebanhos comerciais em relação aos plantéis participantes do programa de melhoramento. Na falta de uma avaliação precisa do quanto é devido a estes fatores, pode-se supor que cada um deles seja responsável por metade dessa diferença, ou seja, 21,5 kg. Assim sendo, a “DEP realizada” de um touro superior quando utilizado em um rebanho comercial seria: DEP ½(defasagem genética), ou seja: 3,9 ½ (21,5) = 14,65 kg. Desta forma, o valor de um único produto de um touro superior valeria, nestas condições, R$73,25 acima da média da fazenda (14,65 kg * R$5,00).

Pode-se verificar, portanto, que apenas a renda extra proporcionada pelo uso de touros melhoradores, advinda da comercialização de bezerros em fazendas comerciais de 125, 250, 500 e 1.000 vacas (quadro a seguir), com relação touro vaca de 1:25 e taxa de desmama de 75%, é capaz de cobrir totalmente os custos da reposição anual de touros nestas fazendas, com a aquisição de touros melhoradores no valor médio de 50 @ de boi gordo, ou seja: cerca de R$ 6.500,00 (valores médios de 2014). Há que ser registrado ainda o valor residual destes animais, ao serem descartados no final de sua vida reprodutiva (R$ 2.450,00 em média, ao longo do ano de 2014; www.correadacosta.com.br).

INSERIR

No âmbito do Programa Geneplus-Embrapa, com 157.493 machos positivos de cinco safras, com taxa de reposição de 20%, relação touro:vaca de 1:25 e taxa de desmama de 75%, e assumindo-se que, reprodutivamente ativos, tenham tido seus produtos desmamados no ano de 2014, estima-se um retorno extra de 216 milhões de reais ao ano apenas pelo incremento no peso a desmama.

No entanto, o Programa Geneplus-Embrapa não é o único no Brasil. Considerando-se um total de aproximadamente 450 mil matrizes Nelore em reprodução nos principais programas de melhoramento desta raça (PMGZ, ANCP e Geneplus/Embrapa) e confrontando-se estes dados com os registros genealógicos realizados pela Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) em 2013 (Josahkian, L. A., comunicação pessoal), estima-se uma produção total anual de cerca de 180 mil machos a desmama, candidatos a reprodutores. Admitindo-se uma vida útil de cinco anos e que a metade destes animais sejam superiores, com DEP semelhante à do Programa Geneplus-Embrapa, o retorno extra pelo uso destes touros em rebanhos comerciais semelhantes aos da amostra analisada da Correa da Costa Leilões Rurais pode ser estimado em cerca de 618 milhões de reais ao ano.

Considerações finais

Obviamente, o retorno econômico baseado apenas no peso a desmama está muito longe de representar o real impacto de um touro melhorador no rebanho. Uma avaliação mais precisa deveria incluir os reflexos até o abate e a fase de reprodução.

Considera-se, portanto, que o investimento em touros geneticamente superiores apresenta elevado potencial de retorno econômico, podendo contribuir decisivamente para a melhoria da produtividade e da renda das fazendas de pecuária de corte, com seu efeito multiplicador no âmbito de toda a cadeia produtiva e dos demais setores da economia a ela interligados.

Não basta, no entanto, que o touro seja geneticamente superior. Para ser melhorador, o touro precisa, antes de tudo, ser um bom reprodutor. Assim, além do valor genético, os touros precisam apresentar boa integridade genital, libido, funcionalidade, capacidade fecundante e que sejam isentos de defeitos desclassificantes, conforme o padrão da raça, de forma que possam, eficientemente, identificar, cobrir e fecundar as matrizes. Assim sendo, a superioridade genética dos pais será repassada aos descendentes que vão completar o ciclo produtivo quer na indústria frigorífica, para a produção de carne, quer na reposição de touros e matrizes dos rebanhos de cria, base do sistema de produção.

Fontes

ABCZ – Associação Brasileira dos Criadores de Zebu. Relatório de Atividades da ABCZ 2013; www.abcz.org.br, acesso em 23 de julho de 2014.

CORREA DA COSTA LEILÕES RURAIS. Resultados dos Leilões de Gado de Corte realizados em 2014; www.correadacosta.com.br, acesso em março de 2015.

ROSA, A.N.F. et. al. Revista ABCZ, Edição 74, maio de 2013.

ROSA, A.N.F. et. al. Sumário de touros Nelore Geneplus-Embrapa, 2013.

ROSA, A.N.F. et. al. Sumário de touros Nelore Geneplus-Embrapa, 2014.

AUTORIA

Antônio Rosa, Luiz Otávio Silva, Fernando Costa, Gilberto Menezes, Roberto Torres Jr. e Mariana Pereira
Pesquisadores Embrapa Gado de Corte

Paulo Nobre
Zootecnista Programa Geneplus-Embrapa

Elias Martins
Engenheiro agrônomo, Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR)

Carlos Fernandes
Médico veterinário, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)

A cracolândia dos polinizadores?

A vida anda mesmo dura para os fabricantes de pesticidas. Não bastasse a Organização Mundial da Saúde (OMS) ter recentemente classificado o glifosato, herbicida mais vendido no Brasil e no mundo, como possivelmente cancerígeno – o que foi tema da coluna de março -, dois trabalhos publicados este mês na prestigiosa Nature evidenciam os impactos negativos dos inseticidas neonicotinoides, largamente utilizados na agricultura, sobre as abelhas.

Em coluna anterior, eu já havia descrito estudos de campo ingleses e franceses que demonstravam que a exposição a concentrações realistas de neonicotinoides deixava abelhas e zangões desorientados, fazendo com que 30% do efetivo da colmeia não retornasse à mesma no fim do dia, reduzindo a produção de rainhas e o tamanho da colônia.

Desta vez, os neonicotinoides são suspeitos de deixar as abelhas viciadas… em neonicotinoides. O nome dessa classe de inseticidas não é coincidência; eles têm de fato estrutura química semelhante à da nicotina e podem estimular os centros de recompensa das abelhas da mesma forma que a nicotina em humanos. O efeito viciante de neonicotinoides em ratos já havia sido demonstrado em 2012 por pesquisadores japoneses.

Agora os autores de um artigo publicado na Nature verificaram que abelhas não só não evitam alimentos com neonicotinoides como preferem estes em relação aos que não contêm o pesticida, o que reduz sua ingestão total de alimento.

Os resultados desmontam o argumento – não comprovado – usado pelos fabricantes para contrapor os estudos anteriores que já apontavam a nocividade dessa classe de inseticidas para abelhas e outros generosos polinizadores. Segundo eles, as abelhas seriam espertas e evitariam os cultivos tratados, reduzindo assim sua exposição (ao custo de deixar de polinizá-los, supõe-se). Mas, infelizmente, se alguns dos sensores das abelhas não detectam a presença dos neonicotinoides, outros percebem muito bem seu canto mavioso e a promessa de prazer, ou fugaz alívio da dor da abstinência. (Alô, fumantes e outros dependentes químicos, isso soa familiar?)

Que mania a indústria tem de inventar produtos viciantes! O fast-food é nocivo e viciante. Os psicotrópicos, idem. Agora temos pesticidas que viciam suas vítimas pretendidas e as outras também. Aguardo ansioso por estudos que investiguem se os neonicotinoides provocam adição em humanos, assim como provocam em abelhas e ratos.

Não duvido que depois de estrilarem como de costume, os fabricantes acabem revertendo essas evidências a seu favor. Já posso imaginar os slogans explorando a atração irresistível das pragas pela toxina que vai matá-las. Pelo menos até desenvolverem resistência ao produto. Que beleza, inventamos a zoocracolândia rural! Nada detém o progresso.

Extermínio de populações

Enquanto isso, um segundo estudo da Nature mostrou que o tratamento de sementes de plantas com flores com o inseticida Elado, que contém uma combinação de um neonicotinoide (clothianidin) e um piretroide (?-cyfluthrin), teve sérias consequências para abelhas selvagens, reduzindo a densidade das colônias, bem como seu crescimento, tudo isso nas chamadas condições de campo, em que a intensidade da exposição e suas vias são semelhantes àquelas vigentes rotineiramente em cultivos reais.

Os estudos em questão ganharam razoável destaque na imprensa estrangeira (esqueça a local, incorrigível), porque a Comunidade Econômica Europeia aprovou uma moratória sobre o uso de certos neonicotinoides na agricultura. A moratória foi pesadamente criticada pelo governo inglês, que a acusa de não ser baseada em evidências científicas suficientes e prefere ir na onda de um relatório da Food and Environment Research Agency (Fera), agência inglesa para pesquisa sobre alimentos e meio ambiente.

O problema é que a Fera não só é mansa como também míope. O tal relatório não passou pelo crivo anônimo dos pares, como acontece com um artigo científico que se preze, já que é apenas um relatório, e vale tanto quanto a agência governamental que o escreveu e os políticos que o sancionaram (aaaaai, que medo!).

Mas cientista é bicho chato. Dave Goulson, professor de biologia na Universidade de Sussex, Inglaterra, também teve medo e resolveu ir à fonte e passar o pente fino no texto. Ele concluiu (está sentado?) que os resultados apresentados no relatório dizem basicamente o contrário das conclusões do mesmo, um caso inédito de bipolaridade bibliográfica que só passou desapercebido pelos atribulados legisladores ingleses devido ao efeito aditivo (com trocadilho, por favor) das generosas contribuições de campanha, sejam de que origem forem.

Não sei não, mas deve ser terrível viver num país onde coisas assim acontecem.

AUTORIA

Jean Remy Davée Guimarães
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Publicado originalmente na Coluna Planeta em transe do Instituto Ciência Hoje.

Sustentabilidade na agricultura com adubos verdes: uma obra completa à disposição da sociedade brasileira

Com o advento da agricultura, mais ou menos há dez mil anos, o homem tem contribuído significativamente para as mudanças de ecossistemas, notadamente pelo mau uso do solo e da água. Mas o desenvolvimento agrícola, através da pesquisa, vem gerando conhecimento técnico que pode minimizar ou mesmo reverter danos em solos cultivados. Atualmente, existe uma preocupação do agricultor moderno e uma demanda da sociedade, por uma agricultura com o mínimo de agressão ao meio ambiente, que preserva ou melhora a qualidade do solo e, ao mesmo tempo, que alcance produções cada vez mais elevadas. Essa conscientização tem levado ao uso de técnicas mais racionais de conservação, fertilização e manejo do solo, o que faz da adubação verde um marco importante para os sistemas agrícolas, pois é uma técnica que une sustentabilidade e aumento da produtividade.

Adubos verdes são plantas utilizadas para aumentar, preservar ou restaurar a qualidade química, física e biológica dos solos, por meio de técnicas agronômicas específicas, cuja cobertura vegetal, viva ou morta, pode ou não ser incorporada ao solo, aumentando o seu potencial produtivo. São várias as espécies que, de acordo com seu ciclo de crescimento, época de semeadura ou sistema de cultivo (exclusivo, sucessão, rotação, consórcio de culturas, intercalar, em faixas ou em coquetel) melhoram a qualidade do solo e podem, também, fornecer sementes, fibras e alimento ao homem e aos animais (forragem), além de diminuir os impactos ambientais da agricultura.

Com o propósito de disponibilizar informações abrangentes e com profundidade sobre esse tema, a Embrapa publicou a obra “Adubação verde e plantas de cobertura no Brasil: fundamentos e prática” – volume 1 e volume 2. O livro é fartamente ilustrado, com cerca de 500 fotos coloridas, e traz, entre seus temas, a história do uso da adubação verde no Brasil, a situação atual e perspectivas futuras da técnica, descrição minuciosa e cuidados com as espécies, os exemplos de rotação de culturas, melhoramento genético e aspectos ecofisiológicos.

Apresenta informações técnicas e práticas sobre semeadura e manejo da biomassa de adubos verdes. Também são abordados assuntos como a evolução do conceito da adubação verde e suas modalidades, o ciclo das espécies, os sistemas de cultivo e a recuperação de áreas degradadas. Aspectos nutricionais e fatores químicos, físicos e biológicos, que condicionam a fertilidade do solo e o crescimento vegetal, são tratados de forma bastante abrangente em vários capítulos.

Fitossanidade, incluindo pragas, doenças, fitonematoides e plantas daninhas, são tratados em capítulos específicos.

São abordados, ainda, os temas manejo e processos envolvidos na adubação de culturas e sistemas agrícolas específicos: grãos e sistema plantio direto, cafeeiro, cana-de-açúcar, fruteiras tropicais, hortaliças, integração lavoura-pecuária, restauração florestal, agricultura orgânica, além de se considerar a prática da adubação verde em biomas brasileiros, como a Amazônia, Tabuleiros Costeiros e o Cerrado.

Por meio desta obra, atual e abrangente, a Embrapa oferece ao leitor um conjunto de informações de elevada qualidade técnica e de grande importância para a agricultura brasileira. É o estado da arte da adubação verde, com a participação de 85 especialistas de diversas instituições de pesquisa e/ou ensino de todo o Brasil, profissionais que pesquisam, ensinam e praticam a adubação verde.

AUTORIA

Oscar Fontão de Lima Filho
Pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste

Uso do plástico na agricultura protegida

Agricultura protegida e plasticultura são a mesma coisa? Nas regiões tropicais, como o Brasil, sim. O cultivo sob ambiente protegido surgiu no norte da Europa, com as orangeries, construídas por grandes casas aristocráticas com o objetivo de ter, no clima frio setentrional, disponibilidade das doces frutas tropicais ou subtropicais, como as laranjas, que deram nome às estruturas. Eram feitas de vidro que, ao capturar a radiação infravermelha no interior das estruturas, criavam o efeito estufa e permitiam calor suficiente para se cultivar. Isso deu origem à ainda hoje florescente agricultura protegida de países como a Holanda.

O advento do polietileno de baixa densidade substituindo o vidro possibilitou, por sua vez, o surgimento e a adoção crescente da agricultura em ambiente protegido nos trópicos. O plástico ainda permite a criação do efeito estufa, mas em menor grau do que o vidro. Nas regiões mais quentes e úmidas do mundo, a agricultura protegida é realizada por outras razões que simplesmente a proteção contra o frio. Aqui, o objetivo é proteger as culturas, principalmente hortaliças e ornamentais, da chuva, do vento, da luminosidade excessiva, e das pragas e doenças.

Em grande parte do Brasil, a chuva em excesso é grande inimiga da produção de hortaliças. É necessário lembrar que nesse tipo de produção, o que conta não é apenas a quantidade produzida, mas também a qualidade, inclusive visual, do que se produz. As intempéries, assim como artrópodes, microrganismos e outros organismos indesejados, podem afetar negativamente a qualidade física e organoléptica das hortaliças.

Tanto em estruturas protegidas quanto em campo aberto, a utilização de mulches plásticos tem aumentado. O objetivo principal é o controle de plantas invasoras – com a cada vez mais intensa urbanização da população brasileira, faltam pessoas para trabalhar no campo e soluções que demandem pouca mão de obra têm ganhado popularidade. A cobertura plástica sobre o solo impede o crescimento das espécies invasoras ao impedirem a luz do sol e, ao mesmo tempo em que diminui a necessidade de mão de obra, previnem o uso de herbicidas. Vale ressaltar ainda que essas coberturas podem auxiliar na economia de água, diminuir as variações de temperatura e até mesmo ajudar a controlar insetos-praga, visto que plásticos de cor branca parecem confundir os insetos e impedir que cheguem às plantas cultivadas.

Fertirrigação

Além das coberturas, a utilização de plásticos na produção de hortaliças e flores sob ambiente protegido tem sido abundante também nos materiais de irrigação — canos, bombas injetoras e dosadoras, tubos gotejadores, microaspersores, entre outros. A utilização generalizada de técnicas de irrigação localizada, como gotejamento e microaspersão, é hoje possível pela utilização de materiais plásticos. Chama-se localizada porque a aplicação da água é feita muito próxima às raízes da cultura, aumentando a eficiência da irrigação, reduzindo as perdas e levando a uma imensa economia de água. A agricultura é grande consumidora de água e, em algumas regiões, tem competido com o uso urbano por esse recurso. Tecnologias que aumentem a eficiência no uso da água se tornarão cada vez mais demandadas.

Além da aplicação de fertilizantes convencionais ao solo, em algumas culturas, principalmente hortaliças, a adubação de plantio pode ser complementada pela aplicação de fertilizantes solúveis dissolvidos na água de irrigação – esta técnica chama-se fertirrigação. No cultivo em substrato, também chamado de semi-hidropônico, a totalidade das adubações pode ser feita via fertirrigação, sem necessidade de uma adubação de plantio.

Uma das vantagens óbvias da fertirrigação é a possibilidade de se subdividir a adubação ao longo do ciclo da cultura visando potencializar a utilização dos nutrientes pelas espécies agrícolas ao disponibilizá-los no momento mais adequado. Por momento adequado, refiro-me à cronometragem de acordo com as necessidades fisiológicas da espécie.

A aplicação de fertilizantes solúveis junto à água de irrigação visa, então, prover os nutrientes certos, nas quantidades corretas, o mais próximo possível ao estádio fisiológico em que o nutriente é mais necessário. Isto só é possível se houver disponibilidade de informação quanto à curva ou marcha de absorção de nutrientes da espécie cultivada em questão, nem sempre disponível para as condições brasileiras.

Em comparação com a adubação convencional, a fertirrigação permite ajustes finos de acordo com as fases de desenvolvimento das plantas, melhorando a eficiência no uso de fertilizantes ao minimizar as perdas. Se o método de irrigação utilizado for localizado, como o gotejamento, a economia de fertilizantes pode ser vantajosamente associada à economia de água.

Menor impacto ambiental

Apesar de todas as vantagens que um material adaptável como o plástico confere, é inegável que há um impacto ambiental em seu uso e principalmente em seu descarte. A preocupação se torna mais e mais relevante tendo-se em vista que, na agricultura protegida, utilizam-se materiais plásticos praticamente do plantio à colheita e que a área ocupada por este tipo de agricultura tende a crescer, com as estimativas para o Brasil já se aproximando dos 25 mil hectares.

Há necessidade de mais pesquisas quanto à utilização de plásticos ambientalmente mais amigáveis, com maior facilidade de biodegradação, com menos contaminantes, orgânicos e inorgânicos, talvez feitos a partir de materiais alternativos, como a cana-de-açúcar. A tendência da agricultura é crescer, principalmente ao redor de grandes centros urbanos. Essa tendência hoje é vista com esperança, pois pode significar uma redução das grandes perdas, principalmente de hortaliças, já que diminuirão as distâncias entre os locais de produção e os de consumo. Obviamente, essa maior aproximação não deve criar mais um problema ambiental para o meio urbano na forma de toneladas de plástico a serem descartadas.

AUTORIA

Ítalo Moraes Rocha Guedes
Chefe-Adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Hortaliças

A escola do campo também é de verdade

Entregamos lápis e papel para aquelas crianças, entre sete e 12 anos de idade, com a seguinte provocação: “O que vocês querem desta Escola?”. Olhei para o que um aluno rascunhava sem compreender e perguntei o que ele estava desenhando. “Uma Escola de verdade”, foi sua resposta. Saí olhando para os vários desenhos espalhados e vi que aquela imagem se repetia pelas mãos das outras crianças.

Eram estudantes do 1º ano ao 5º ano, reunidos numa única classe improvisada num terraço de uma das casas de engenho, aguardando o fim da reforma de sua escola, que está localizada em um prédio que já pertenceu ao engenho. A prefeitura custeou a obra, colocou cerâmica no piso da sala, trocou as instalações elétricas, pintou as paredes e azulejou a cozinha. A escola fora selecionada para um projeto que levaria conexão, formação para os docentes e 12 notebooks para os alunos.

Por que uma escola de verdade?

O Censo Escolar de 2013 constatou 41.060 escolas com menos de 50 alunos na área rural. Muitos gestores usam esses dados para dois movimentos: mantê-las abertas, contratando um docente para turmas com estudantes de anos diferenciados, reunidos numa única classe (unidocente); e fechá-las, alocando-os nas escolas urbanas seriadas (nucleação).

Muitas dessas escolas funcionam em prédios inadequados, cedidos por donos de engenhos, sem saneamento básico, biblioteca, mobílias e sem material didático para a rotina do ensino e da aprendizagem. Ambientes improvisados e precários com alto índice de evasão e repetência, chamados por alguns pesquisadores de “Escolas Esquecidas”.

Nos discursos que “justificam” esse “esquecimento” há duas afirmações: o urbano como o lugar do desenvolvimento social, econômico e tecnológico e o modelo da classe seriada como escola de verdade, organizada em “séries”. O campo é negado como lugar de oportunidade, emancipação e autonomia. Não é visto como lugar vivo com valor em si mesmo e que integra a cidade. É um lugar de atraso e, portanto, não vale a pena investir e empoderar sua comunidade.

Por outro lado, as escolas seriadas como modelo disciplinar, homogêneo e hierárquico condenam milhões de jovens ao fracasso. Elas são exatamente um modelo de sucesso a ser comparado. As práticas pedagógicas que desconsideram a diversidade e a diferença, as vivências e saberes dos grupos têm sido questionados há algum tempo, independente do espaço geográfico onde se encontram.

A escola do campo é assim definida por receber quilombolas, índios, pescadores, extrativistas, agrícolas, assentados, dentre outros, e não por localização espacial. Esta diversidade, constituída por 30 milhões de pessoas, extrapola os limites do “rural” ou do “urbano”. Muitas vezes, essa escola, é o único acesso à cultura, as atualizações do trabalho, as inovações tecnológicas e a sistematização do conhecimento para esses cidadãos.

Por conta disso, essa trajetória não é traçada apenas por negações. Há uma história de resistência, uma luta para inseri-las na dinâmica social, política e econômica do campo como escolas públicas de qualidade abertas às demandas por tecnologias, cultura e trabalho dessa população. A luta por assentá-las com qualidade na comunidade, fortalecendo a identidade cultural.

A escola de verdade, desejo das nossas crianças, pode estar no campo e ser multisseriada com uma cultura de saberes e fazeres docentes voltados para a diversidade e aberta para a vida da comunidade. Essa pedagogia vem sendo construída há séculos por docentes que se acordam às 4 horas da manhã, viajam muitos quilômetros em estradas de barros, retornam para um segundo expediente e prosseguem nas pós-graduações noturnas das faculdades do interior do país. Está sendo reinventada por docentes forjados no desafio de construírem conhecimentos em espaços e tempos pedagógicos bem mais complexos que o paradigma curricular seriado, fragmentário, hierárquico e disciplinar.

Essa reinvenção não depende apenas de “medidas” no interior da escola, como informatização da sala de aula, mas de iniciativas que deem sustentabilidade ao campo, sustentabilidade à comunidade, sustentabilidade ao docente. A escola é desenhada por fora, também. O esquecimento da escola relaciona-se com a negação da vida no campo.

Os docentes do campo de Vitória de Santo Antão (PE) sabem disso, participam dessa construção, apropriando-se das tecnologias da comunicação e informação para amplificar o diálogo para além dos seus territórios, ampliar os meios e as formas de se expressarem, ampliar os espaços de aprendizagem e abrir as portas da escola para a comunidade. Deste modo, encontraram colaboradores para co-criarem essa escola de “verdade”, tão desejada pelas crianças. Essa cocriação passa por medidas do poder público local, laboratório de didática inovadora para classes multisseriadas e parcerias como o projeto Escolas Rurais Conectadas, da Fundação Telefônica.

AUTORIA

Walquíria Castelo Branco Lins

Bacharel em filosofia e sistemas de informação com ênfase em engenharia de software.

Fez especialização, mestrado, doutorado e pós-dourado em tecnologias aplicadas a Educação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

É professora colaboradora do programa de pós-graduação em educação matemática e tecnológica da UFPE.

Também atua como consultora e professora do mestrado profissional de engenharia de software e do mestrado profissional em design do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR).

É uma das coordenadoras da especialização em educação inovadora CESAR-SINGULARIDADES. Como consultora e professora tem desenvolvido projetos e orientado pesquisas na intersecção entre desenvolvimento de tecnologia, inovação e educação.

Este artigo é parte da série de reportagens Tecnologia do Campo, uma parceria do Porvir com a Fundação Telefônica. Publicado originalmente no site Porvir.

PD&I como alavanca para a pecuária sustentável

A pesquisa, o desenvolvimento e a inovação (PD&I) associados à transferência de conhecimentos e tecnologias (TT) são os principais pilares para o desenvolvimento de um agronegócio realmente sustentável. Esses sustentáculos foram, são e serão a base para produção de alimentos, fibras e energia renovável no mundo.

Segundo projeções da Organização das Nações Unidas (ONU), até 2050 a população mundial ultrapassará o número de 9,2 bilhões de habitantes, dos quais cerca de 30% serão idosos. A FAO estima que será consumido o dobro de alimentos produzidos atualmente, sendo que o adicional de proteína animal poderá chegar a quase 100% passando dos atuais 284 milhões de toneladas para 500 milhões de toneladas de carne, enquanto para grãos será necessário produzir mais 1 bilhão de toneladas. Isso representará um crescimento médio de 70% da produção de alimentos, e a incorporação de pelo menos 120 milhões de hectares de novas áreas agrícolas, especialmente na África Sub-Saariana e na América Latina.

Há uma expectativa, para o horizonte de 2050, de 72% do consumo de carne ocorrer em países em desenvolvimento, contra os 58% atuais. Essa projeção certamente tem como suporte a expectativa na melhoria de qualidade de vida e renda da população, e pelo fato do consumo de carne estar intrinsecamente associado ao poder aquisitivo do consumidor.

Por outro lado, enquanto há países com consideráveis índices de consumo per capita, disponibilidade de carne, ou renda que favorecem este consumo, ainda hoje é necessário alimentar quase 1 bilhão de famintos e reduzir 25 mil óbitos diários no mundo decorrentes da fome. Associado a estes fatores, o agronegócio deve contribuir para o incremento da renda do produtor e dos atores associados à cadeia produtiva, a fim de reduzir os indicadores de pobreza. Para suprir essa demanda de alimentos no mundo estima-se que 70% do incremento da produção será exclusivamente pela adoção de tecnologias.

A importância da cadeia produtiva da pecuária, em especial da carne bovina, está diretamente relacionada às tendências do mercado agroalimentar, em que a segurança dos alimentos, sua qualidade e a necessidade de aumentar a produtividade são os três principais pilares. O Brasil é o maior exportador de carne bovina (33% do comércio mundial), com projeções e espaço comercial para aumentar a sua participação no mercado externo. Hoje a cadeia de produção de carne no Brasil tem o maior valor bruto entre os produtos agrícolas. A pecuária de corte responde por 11% do produto interno bruto (PIB) do agronegócio.

A pressão pela produção sustentável e otimizada de alimentos, associada aos novos padrões regulatórios dos países importadores, impõe o desafio da PD&I para a produção de carne bovina. O Brasil e o mundo devem produzir alimentos, fibra e energia renovável de forma sustentável sem impactar os biomas, primando pela conservação dos recursos naturais. Sem esquecer a mitigação dos gases de efeito estufa (GEE), a otimização do uso da terra, e do lucro ao produtor rural.

O aumento da produtividade é uma das alternativas para o incremento físico da produção sem a necessidade de uso e abertura de novas áreas para pastagens. Desta forma, para melhorar a performance dos animais e promover crescimento da produtividade de carne bovina, faz-se necessário o desenvolvimento de soluções tecnológicas que sejam absorvidas pelos segmentos e atores da cadeia produtiva da pecuária de corte.

Precisamos realizar PD&I e TT visando não só desenvolver e transferir soluções tecnológicas, mas, sobretudo, que sejam adotadas, causem impactos positivos e contribuam para superar os desafios globais para a produção de proteína animal: i) barreiras não-tarifárias como as sanitárias, ambientais e sociais, ii) barreiras técnicas como bem-estar e uso de animais, iii) rastreabilidade e certificação, iv) acordos sanitários, e v) logística e armazenamento.

As instituições de ciência e tecnologia têm papel âncora para o desenvolvimento do agronegócio e da cadeia produtiva da pecuária de corte. Para alcançar os patamares atuais de importância e impacto da produção de carne no Brasil e sua participação no mundo, a Embrapa contribuiu de forma decisiva por meio da geração, adaptação e transferência de conhecimento e de tecnologias relacionadas a pastagens, genética animal, sanidade animal, nutrição animal, gestão do agronegócio, dentre outras.

Hoje as demandas são outras e maiores. É preciso contribuir para a evolução dos protocolos de qualidade (de boas práticas de produção a sistemas de produção integrados), passando por rastreabilidade e certificação, incrementar e internalizar as tecnologias de integração lavoura-pecuária-floresta, desenvolver tecnologias portadoras de futuro (biotecnologia, nanotecnologia, genômica, proteômica, bioinformática), ofertar ferramental de tecnologias de informação e comunicação (as chamadas TICs), investir em pecuária de precisão, explorar a eficiência energética dos sistemas produtivos, reduzir a emissão de GEE, recuperar pastagens, e desenvolver tecnologias em genética, nutrição, sanidade animal e gestão rural. Mesmo porque, é previsível que apenas com a adoção de tecnologias é possível saltar a produção de carne bovina dos atuais 9,5 milhões de toneladas para 24,2 milhões de toneladas sem aumentar em um hectare a área ocupada por pastagens.

O desafio para a pecuária sustentável, no sentido amplo da palavra, vem sendo lançado, cabe a nós superá-lo. Devemos realizar PD&I como alavanca da pecuária eficiente, em benefício da sociedade brasileira, e de uma produção global cada vez mais sustentável.

AUTORIA

Cleber Oliveira Soares
Chefe-geral da Embrapa Gado de Corte

Salada fria e tempo quente

Está quente. Quando o ponteiro indica nove horas da manhã uma nuvem esparsa de poeira flutua sobre um extenso campo de hortaliças. O ar está sequíssimo e as temperaturas chegam perto de 40 graus. Estamos na cidade de El Centro, na Califórnia, perto da fronteira com o México. Dr. Beiquan Mou, geneticista do Departamento de Agricultura dos EUA, estampa um sorriso porque suas alfaces roxas estão reagindo bem a essas condições.

A alface é uma planta delicada e precisa ser paparicada e protegida em temperaturas amenas. Acima dessa temperatura ela sofre e a taxa de perda e desperdício é alta. A perspectiva de aumentos de temperaturas provocada pelo aquecimento global é uma péssima notícia para a sua salada e para um mercado que não para de crescer. O vale de Salinas, no norte da Califórnia, abastece 60% do mercado de alfaces nos EUA. A região se beneficia de correntes de ventos frescos que vêm do Pacífico. No futuro é possível que essa região se pareça com El Centro, onde o clima é quente seco e árido. Essa mesma transição ameaça outras regiões. Se os prejuízos para o mercado de alface podem chegar a cinco bilhões de dólares/ano, segundo estimativas, as cifras para outros produtos agrícolas são inestimáveis. É por isso que hoje há pesquisas em ambientes de clima extremo, como forma de se preparar para um futuro incerto.

O trabalho do Dr. Mou é um exemplo do tipo de trabalho que precisa ser desenvolvido para o futuro. Desde 2010 ele lidera uma pesquisa para encontrar as alfaces mais resistentes ao calor. Graças a um financiamento público, ele já testou mais de 3.500 variedades de alface e espinafre em uma câmara quente de laboratório, expondo-as a temperaturas altíssimas e registrando os resultados. O objetivo é identificar as variedades mais resistentes e isolar os genes que favorecem sua sobrevivência.

No futuro não muito distante os vencedores dessa verdadeira luta chegarão ao prato do consumidor. As alfaces do futuro terão o mesmo sabor, mas graças a pesquisas como as do Dr. Mou, elas terão vindo de desertos e vários outros ambientes.

Mas o caminho não é fácil. Muitas das plantas do campo do experimento de alface acabam parecendo mutantes que em nada se assemelham às variedades que encontramos em supermercados. Algumas crescem quase meio metro, na tentativa de florescer rapidamente, em reação às condições extremas em que a planta sobreviverá por pouco tempo. Outras ficam com o gosto muito amargo. Isto porque o sabor de uma variedade pode ser afetado pelas condições climáticas. O aquecimento global determinará no futuro a composição da salada. Desenvolver uma super-alface resistente exige tempo e dinheiro. O futuro será quente.

AUTORIA

Luiz Carlos Bhering Nasser
Agrônomo, Pós-Doutor em Biologia Ambiental
Professor Coordenador do Curso de Pós-Graduação de Análise Ambiental e Desenvolvimento Sustentável do UniCEUB
Membro do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS)

Agriculturas sustentáveis? A inovação agroecológica para a valorização da agrobiodiversidade e autonomia da agricultura familiar

A Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO), instituída em agosto de 2012, firmou o compromisso do governo federal em “integrar, articular e adequar políticas, programas e ações indutores da transição agroecológica, da produção orgânica e de base agroecológica, como contribuição para o desenvolvimento sustentável e a qualidade de vida da população, por meio do uso sustentável dos recursos naturais e da oferta e consumo de alimentos saudáveis”.

A importância da Agroecologia para a alimentação humana tem sido reconhecida inclusive pela ONU [Organização das Nações Unidas]. Olivier De Schutter, relator especial da ONU sobre direito à alimentação, atesta como a Agroecologia contribui para tornar efetivo o direito humano à alimentação adequada em suas diferentes dimensões: disponibilidade, acessibilidade, adequação, sustentabilidade e participação social.

Apesar destas constatações, percebe-se ainda a existência de pelo menos duas concepções sobre padrões de estruturação da atividade agrícola no debate sobre a sua produção mundial. A primeira delas, calcada no modelo de agricultura empresarial, estruturado pela elevada dependência em relação aos insumos químicos, mecanização intensiva e o uso insustentável dos recursos naturais, em processos de industrialização da agricultura e, principalmente, do maior controle sobre as bases genéticas de várias culturas alimentares, a partir dos híbridos e, mais recentemente, com as variedades transgênicas.

De outro lado, a Agroecologia e produção orgânica que, em suas diferentes expressões no conjunto das agriculturas sustentáveis, emergem ou reaparecem (a agroecologia também se ancora nos conhecimentos dos povos e comunidades tradicionais) como outra perspectiva em relação ao modelo anteriormente citado, valorizando e potencializando o trabalho familiar, as relações de gênero e geração, a utilização e autoprodução de insumos naturais, as tecnologias e práticas orgânicas, a conservação da agrobiodiversidade, a valorização dos conhecimentos e saberes dos agricultores, povos indígenas e comunidades tradicionais, dentre outros elementos. Estes fazem com que o enfoque agroecológico alcance ressonância junto a amplos segmentos da sociedade e movimentos sociais, institucionalizando-se como política pública.

Nessa aparente polarização, no entanto, observa-se o aparecimento de leituras/concepções que revelam uma tentativa crescente de apropriação do discurso ambiental acerca da sustentabilidade, amparado pelos grandes alertas ao meio ambiente como as teses “neomalthusianas” em torno das consequências do acelerado crescimento populacional, ou pelas alterações climáticas já percebidas em diversas regiões do Planeta, além dos desmatamentos, escassez hídrica e perdas dos solos agrícolas para tentar harmonizar a incompatibilidade inerente aos distintos estilos de desenvolvimento.

Tais leituras buscam a construção de outra racionalidade fundamentada prioritariamente no mercado, como se todas as ações que favorecessem ou impulsionassem as dinâmicas da Natureza, pudessem ser consideradas “agroecológicas”, mesmo quando contrariam a racionalidade e a prática dos agricultores familiares que tem na autonomia, em suas diferentes vertentes, sua principal conquista. Nessa perspectiva, o status de “ecológico” ou “agroecológico” estaria, de um lado, estruturado por uma “leitura econômica dos processos da Natureza”, ou dos benefícios/serviços ambientais por eles proporcionados, ao sabor da chamada Economia Ecológica. Ao mesmo tempo, tal leitura promove a manutenção do estilo de agricultura que estimula a dependência externa, especialmente de insumos químicos (fertilizantes e agrotóxicos) e organismos geneticamente modificados.

Neste contexto, a Agroecologia não é apenas um estilo de agricultura que tem como princípio a não utilização de agrotóxicos ou outros insumos químicos. A Agroecologia é uma ciência que pretende contribuir para o manejo de agroecossistemas sustentáveis numa perspectiva de análise multidimensional (econômica, social, ambiental, cultural, política e ética) e constitui-se numa matriz disciplinar integradora de saberes, conhecimentos e experiências. Dessa forma o que está em jogo não é a simples decisão pelas melhores ou piores práticas agrícolas, tampouco a valorização de indicadores que meçam exclusivamente a produtividade.

Estes caminhos, aqui superficialmente destacados, além de evidenciarem a existência de diferentes matrizes de pensamento em relação à produção agrícola, apontam para a importância da compreensão sobre as formas como a economia neoclássica se apropria e se molda aos processos produtivos para fortalecer as dinâmicas do capital na agricultura. O mais importante é que isso ocorre, geralmente, de modo bem distante das perspectivas e reais interesses da grande maioria dos agricultores familiares e comunidades tradicionais, maiores responsáveis pela produção de alimentos no Brasil e no mundo.

AUTORIA

Fernando Fleury Curado
Edson Diogo Tavares
Amaury da Silva dos Santos
Pesquisadores do Núcleo de Agroecologia da Embrapa Tabuleiros Costeiros

Dia Nacional da Conservação do Solo: importância de se preservar esse recurso fundamental

A ciência na agropecuária enfrentará, nos próximos 30 anos, um dos seus maiores desafios: contribuir na produção sustentável de alimentos, fibras, energia e combustíveis para uma população de 9 bilhões de pessoas em um cenário de estagnação no rendimento das culturas devido, principalmente, ao avanço da produção agropecuária em solos marginais e aos eventos climáticos extremos. Neste cenário, o solo desempenha papel fundamental como componente crítico dos sistemas naturais e como contribuinte vital para o bem-estar humano. A erosão dos solos é um dos maiores contribuintes para a redução da produtividade das culturas em escala global.

Na região de atuação da Embrapa Pesca e Aquicultura, em que há concentração de chuvas de altas intensidade e quantidade, o manejo e a conservação do solo são essenciais para que a resiliência dos sistemas de produção seja aumentada. Vivenciamos, nas últimas quatro safras no estado do Tocantins, um aumento de 25% da área plantada com grãos, associado a eventos de excesso e déficit hídrico em períodos importantes do desenvolvimento das plantas, o que acarretou redução do rendimento.

Na safra 2014/2015, observamos deficiência hídrica no Sul do estado em período crítico das culturas e excesso de chuvas durante a colheita no Centro e no Norte do estado. Nesse sentido, o manejo e a conservação dos solos desempenham papel fundamental em reduzir o impacto dos eventos climáticos, em epecial chuva, tanto pelo excesso, quanto pela falta. Os sistemas de manejo do solo e de culturas devem propiciar ao solo absorver o impacto das gotas da chuva, evitando sua desagregação, deve permitir que a água infiltre e que ocorra o mínimo de escorrimento superficial e deve, ainda, permitir que a água infiltrada fique retida no solo, de forma a garantir o adequado desenvolvimento das plantas.

A resiliência dos sistemas agrícolas a eventos climáticos extremos é função da interação genética x ambiente x manejo. No entanto, o manejo é o fator pelo qual se obtêm respostas mais rápidas e efetivas para aumento da resiliência dos sistemas agrícolas frente à variabilidade climática.

Hoje, dia 15 de abril de 2015, é celebrado o Dia Nacional da Conservação do Solo e cabe a todos nós uma reflexão sobre como contribuir para a conservação desse recurso natural não renovável, que é o alicerce dos sistemas de produção de alimentos, das cidades, das estradas e para o bem-estar humano como um todo.

AUTORIA

Elisandra S. O. Bortolon
Doutora em Ciência do Solo – Manejo e Conservação do Solo

Leandro Bortolon
Doutor em Ciência do Solo – Fertilidade do Solo e Manejo de Nutrientes