Bahia: A conquista do Oeste

Por José Alan Dias De Salvador

Região colhe os frutos de uma sofisticada e diversificada evolução na produção agrícola nos três últimos anos

Quando chegou ao Oeste da Bahia, em 1973, a primeira providência da família do norte-americano Clay Earl, à época um adolescente, foi procurar os órgãos do governo para descobrir a quem pertenciam as terras naquele imenso cerrado, cuja única referência era a estrada que ligava o município de Barreiras (853 km de Salvador) a Brasília. De um funcionário público, Clay, o pai e o irmão ouviram que, se eram tão loucos a ponto de quererem comprar terras devolutas do Estado naquela região, poderiam ficar com elas de graça. Bastaria delimitar a área.

Os Earls não escolheram aquele lugar por acaso. O patriarca, que visitara várias regiões brasileiras em busca de terra barata e com potencial produtivo para comprar, se entusiasmara com a topografia plana e a abundância de nascentes de rios.

A expansão dessa “terra de ninguém” começaria, de fato, na virada dos anos 70, quando chegaram os primeiros migrantes da região Sul, em sua maioria gaúchos. Esses descendentes de alemães, italianos, poloneses e húngaros vendiam pequenas propriedades de 20 a 30 hectares para comprar áreas de 10 mil hectares no Oeste baiano.

Passadas quase três décadas, a Bahia, de certa forma, experimenta uma volta ao passado. Desde os anos 90, por meio de uma política agressiva de incentivos, o governo estimula investimentos no setor industrial, estratégia que resultou na instalação de um parque automotivo liderado pela Ford, com investimento de US$ 1,9 bilhão, em 2001, e mais recentemente no anúncio da Continental, fabricante alemã de pneus, de que aplicará US$ 260 milhões na construção de uma unidade, em Camaçari, além do desembarque de fábricas de calçados e informática e novos investimentos na petroquímica e celulose. Além disso, a Bahia consolida-se como um dos mais importantes centros turísticos do país: em 2003, com 4,7 milhões de turistas recebidos, praticamente empatou com São Paulo no segundo posto – perde apenas para o Rio.

A Bahia ostenta ainda uma assombrosa evolução em sua produção agrícola – notadamente nos três últimos anos. É uma volta ao passado que não mais depende de uma única cultura, como fora o cacau até a década de 50, mas com uma produção diversificada e sofisticada. E que tem o Oeste como centro. A região, que ocupa 28,5% do território baiano e abriga 39 municípios, será responsável por 62% da soja, quase 90% do algodão, 27% do milho e 6% das frutas produzidas no Nordeste na safra 2004.

O Oeste baiano tem hoje 1,36 milhão de hectares cultivados. Pelas estimativas da Aiba (Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia), o potencial de expansão de áreas agricultáveis chega a mais 3 milhões de hectares.

Entre o início da década de 90 e o ano passado, a área cultivada no Oeste da Bahia cresceu 191%. Do total de área plantada na safra 2003/2004, 60% foi ocupado pela soja, 13% pelo milho, 12% pelo algodão, 2% por arroz, 1% por café, outro 1% por frutas e o restante dividido entre culturas que incluem sorgo, capim e milho de pipoca. “Uma das razões para os excelentes resultados da região é essa diversificação produtiva”, diz Humberto Santa Cruz Filho, presidente da Aiba.

A produção total de grãos na região passou de 792 mil toneladas (em 1992) para os 4,115 milhões previstos pelo governo para a região neste ano. No total, a Bahia deve colher 5,37 milhões de toneladas de grãos em 2004.

Com 2,216 milhões de toneladas na atual safra (aumento de 42,5% em relação a 2003), o Oeste concentra toda a produção de soja do Estado e 4% do total do país. A Bahia é hoje o sétimo maior produtor nacional.

Nada comparável ao excelente resultado obtido pelo algodão. A produção aumentou de 240 mil toneladas, em 2003, para 595 mil toneladas (previstas para este ano), aumento de 147%. A Bahia ocupa desde o ano passado o segundo lugar na produção nacional, atrás do Mato Grosso. O “ouro branco” deve, a partir do próximo ano, superar a soja na participação do PIB agrícola da Bahia, prevê João Carlos Jacobsen, da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão.

Não bastasse, o cerrado da Bahia vê o aumento, ano a ano, da área cultivada de café. São 13.400 hectares, que equivalem a 12% da área cultivada de café no Estado. Com a expectativa de colheita de 670 mil sacas, o Oeste responderá por um quarto da produção baiana (de 2,4 milhões de sacas).
O aumento da área irrigada permitiu que fosse implantado um novo pólo de fruticultura, a exemplo do existente nos arredores de Juazeiro e Petrolina (PE). A região exporta frutas para Inglaterra, França, Portugal e Holanda.

A revolução no Oeste baiano é perceptível em mais indicadores. A cidade de Luís Eduardo Magalhães, antigo distrito de Barreiras, da qual está distante 94 quilômetros, viu sua população dobrar entre 2000 (data do último Censo do IBGE) e este ano (de 20 mil para cerca de 44 mil pessoas).

O espetacular desempenho agrícola atraiu gigantes estrangeiras, como a Bunge, que mantém em Luís Eduardo sua maior unidade de processamento de soja no Brasil e uma fábrica de fertilizantes. Outro gigante, a norte-americana Cargill, processa soja em Barreiras. A Galvani instalou uma fábrica de fertilizantes em Luís Eduardo. A fabricante de tratores John Deere mantém na cidade sua maior revenda na América Latina – e tem ainda uma revenda em Barreiras.

A Bahia não olha apenas para a nova fronteira. A expansão agrícola em outras áreas permitiu que as pequenas Mucugê e Ibicora, na Chapada Diamantina, se tornassem plenas em emprego.

No ano passado, enquanto a economia brasileira, como um todo, ficou estagnada (o PIB teve variação negativa de 0,2%), o PIB da Bahia cresceu 3%. O Estado consolidou sua participação de 6% no PIB total brasileiro. Entre este ano e 2008, estão programados investimentos de R$ 21,631 bilhões no Estado, apenas no setor industrial.

A balança comercial da Bahia registrou no ano o maior saldo comercial de sua história – saltou de R$ 532 milhões em 2003 para o R$ 1,334 bilhão em 2004.

No setor de turismo, estão confirmados investimento de US$ 250 milhões do espanhol Iberostar na construção de um resort com 1.400 apartamentos na praia do Forte. A praia de Itacaré, no sul do Estado, abrigará o primeiro hotel seis estrelas do país, a ser construído também por um grupo português.

“O grande desafio da Bahia agora é melhorar seu IDH (Índice de Desenvolvimento Humano)”, diz o secretário estadual do Planejamento, Armando Avena. No ranking que abrange de 1991 a 2000, a Bahia estava em 22º lugar entre os Estados brasileiros.


Jornal Valor Econômico – 28/6/2004
http://www.valor.com.br

Bahia: Agricultores dos EUA compram terra na região

De Luís Eduardo Magalhães

As oportunidades de investimento no cerrado brasileiro atordoam a imaginação. Um mundo de oportunidades. Com alguns desses dizeres (e uma enormidade de fotos) a empresa norte-americana AgBrazil apresenta em sua página na internet os serviços que oferece a agricultores e investidores dos EUA: tours para o Oeste da Bahia, assessoria técnica e jurídica para análise e compra de propriedades e a imigração para o país.

A empresa com sede no Missouri, dirigida por um norte-americano que morou no Brasil, Philip F. Warnken, promove esse tipo de turismo que começa a se tornar comum na região de Barreiras e Luís Eduardo Magalhães, as duas principais cidades do Oeste baiano. Segundo o Sindicato Rural de Luís Eduardo Magalhães, cinco americanos mantêm propriedades no município.

Clay Earl, americano do Kansas que chegou à área onde se localiza Luís Eduardo em 1973, explica o porquê do interesse dos fazendeiros do Norte: enquanto nos EUA o hectare de terra custa entre US$ 6 mil e US$ 8 mil, no cerrado baiano terras de boa qualidade podem ser encontradas por cerca de US$ 2 mil. “Normalmente, vêm os agricultores mais velhos, já estabelecidos. Procuram terras para os filhos. Não há mais grandes áreas disponíveis de boa qualidade nos EUA e as que existem são caras”, diz Earl, proprietário de uma fazenda de 4.500 hectares.

O fazendeiro, que planta algodão e soja, atua como “guia” para os grupos de estrangeiros que visitam a região. No ano passado, ele recebeu cerca de 60 pessoas. Este ano, foram cem visitantes até o último mês. Os investidores/agricultores pagam US$ 1.700 (a partir de Brasília) pela estadia de uma semana no Oeste baiano, que inclui visitas a fazendas produtoras de café, soja, algodão e frutas. “Eles têm muitas dúvidas sobre as condições de infra-estrutura, escoamento de produção, valor e qualidade das terras. Indagam sobre segurança. Mas depois de uma semana aqui, vêem que essa não é uma questão relevante”, diz Earl, casado com uma baiana, pai de três filhos e dono de um marcado sotaque baiano.

Segundo Earl, a implantação de uma propriedade agrícola de tamanho médio (entre mil e 2 mil) em áreas de melhor qualidade ( de maior intensidade de chuvas) exige investimento da ordem de R$ 500 mil. (J.A.D.)


Jornal Valor Econômico – 28/6/2004
http://www.valor.com.br