Agrosoft 2002: Situação Atual, Potencial e Uso da Gestão Informatizada em Fazendas e Cooperativas Agropecuárias

SITUAÇÃO ATUAL, POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES DO USO DA GESTÃO INFORMATIZADA EM FAZENDAS E COOPERATIVAS AGROPECUÁRIAS NO BRASIL

Luiz Carlos Takao Yamaguchi
Limirio de Almeida Carvalho
Claudio Nápolis Costa

Embrapa Gado de Leite

1. INTRODUÇÃO

Nos dias atuais, o mundo encontra-se em rápido processo de transição da sociedade industrial para a sociedade da informação, considerada por muitos como uma revolução em escala bem maior e global e de ciclo bem menor que o experimentado pela revolução industrial. Neste processo de transição a informação tem sido apontada como a principal fonte do poder, em substituição ao capital, referência de poder da sociedade industrial. Também as empresas estão passando por um processo drástico e rápido de reorientação e reestruturação, visando sempre buscar respostas para satisfazer as necessidades e expectativas dessa nova sociedade.

Diante destes fatos, o mundo dos negócios vem passando também por um acelerado processo de transição, da era de produção em massa para a era da produção com foco no atendimento das necessidades dos clientes, que passam a ocupar uma posição de destaque com vontades próprias e necessidades específicas. Neste contexto, o fluxo de informação foi invertido, e se realiza no sentido consumidor/distribuidor/indústria/produtor primário. Assim, a filosofia de oferta de produtos passa para a filosofia de atendimento de demanda, impondo-se um novo ritmo de organização da cadeia produtiva, a partir das mudanças nos padrões de consumo.

São inúmeras as forças que impõem novas concepções e valores ? sociedade e ? s empresas, sendo a mais importante delas a rapidez nas mudanças exigidas. As novas tecnologias têm promovido mudanças e adaptações das empresas em ritmo sem precedentes. Elas têm exercido forte impacto até mesmo sobre as estruturas empresariais mais conservadoras, cujas estratégias e regras de gerenciamento e administração foram desenvolvidas e organizadas para atender mercados e tecnologias estáveis, que se modificam gradualmente, em ritmo bastante lento. O sistema de informação vem alterando a natureza da administração e afetando a direção e a cadência das mudanças.

A principal fonte provedora desta mudança tem sido o intenso emprego do recurso informação associado ? s tecnologias facilitadoras de coleta, processamento, armazenamento e disseminação, conhecidas como Tecnologias da Informação (TI). Cada vez mais as empresas têm recorrido a esta tecnologia para a adequação de seus empreendimentos ao novo formato de operação exigido pelo mercado nacional e internacional.

Dentro dessa nova realidade, o mundo começa a perder fronteiras do ponto de vista de mercado. O executivo administrador deve estar sempre atento a essas mudanças e também preparado para entender a nova dinâmica da economia mundial, para obter e consolidar vantagens competitivas. Como resultado, os novos modelos de organização empresarial estão voltados para atender ? s necessidades e expectativas dos clientes, com alta qualidade e produtividade, adotando estrutura organizacional leve e com mínimo de infra-estrutura. O cliente passa a ocupar posição de destaque e para ele se orienta a produção em escala, as interações em redes assumem o lugar da hierarquia funcional, as alianças estratégicas surgem em substituição ? s aquisições e fusões. Todas essas tendências geram novos desafios nas diferentes áreas administrativas, por exemplo, planejamento, produção, marketing e distribuição, entre outras.

2. OBJETIVOS

Este trabalho tem como objetivo descrever a situação atual de fazendas e cooperativas agropecuárias brasileiras quanto da adoção de Tecnologia da Informação, bem como discutir potencialidades e limitações para sua utilização no futuro.

3. SITUAÇÃO ATUAL

3.1 Agronegócio

O agronegócio vem se destacando como um dos setores mais importantes da economia brasileira. Segundo Haddad (1999), este setor teve uma participação significativa contribuindo com 30% na formação do PIB, empregando mais de 35% da população economicamente ativa residente e respondendo por cerca de 40% das exportações.

Com a criação da Organização Mundial do Comércio, abertura do mercado mundial, internacionalização da economia e, principalmente, pelas facilidades de comunicação, os agentes econômicos do agronegócio têm sido colocados diante de um mundo que apresenta os mercados cada vez mais integrados, exigindo padrões de concorrência que requerem competência e vantagens competitivas em termos de produção, processamento, distribuição e comercialização dos produtos.

De modo semelhante, a cadeia agroindustrial nacional tem passado também por profundas transformações dentro desse novo ambiente econômico e social altamente competitivo, requerendo tanto dos produtores rurais quanto dos dirigentes de cooperativas maior profissionalismo na condução dos seus negócios, o que implica obtenção de informações mais precisas, organização e utilização eficiente. Embora a aplicação da informática seja ainda bastante incipiente no meio rural, principalmente quando comparada a outros setores, não se pode negar a existência de um bom número de softwares específicos no mercado nacional. Corroborando essa afirmativa, Vale e amp; Santos (1998), citando o Guia Agrosoft 97, relata a existência de 146 títulos de programas, destinados exclusivamente ao setor agropecuário.

3.2 Fazendas

No que se refere ao uso de microcomputadores em fazendas, Teixeira et al. (1998), analisando as características e a estrutura de produção de leite em 76 fazendas controladas pela Associação de Criadores de Gado Holandês do Estado de Minas Gerais nas Regiões Sul, Zona da Mata, Alto Paranaíba, Oeste, Campo das Vertentes e Metalúrgica, identificou a presença de computadores em 25% das fazendas. Ainda, José G. Jardine, com base em estudo realizado pela Embrapa Informática Agropecuária, argumentou em uma reportagem publicada pela Leite Nestlé em abril de 2002, que cerca de 18% dos fazendeiros brasileiros possuem microcomputadores, dos quais 4% encontram-se conectados ? Internet. Por outro lado, estudo recente realizado pela Embrapa Gado de Leite, em parceria com as principais compradoras de leite do País, que incluíram aplicações de questionários nos Estados de Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Paraná e Rio Grande do Sul, responsáveis por cerca de 70% da produção nacional de leite, constatou-se que nas 162 fazendas visitadas, em torno de 5% possuíam microcomputadores, e que menos da metade utilizava essa ferramenta para o gerenciamento do rebanho. Vale ressaltar que essas fazendas foram selecionadas pelas cooperativas e indústrias de laticínios como unidades de referência na produção leiteira regional.

De acordo com Lemle (2002), os agricultores internautas são seres desconhecidos para o governo mas as multinacionais do setor agrícola fabricantes de máquinas, sementes, defensivos, fertilizantes e outros artigos agrícolas encomendaram recentemente ao instituto alemão Kleffmann, especializado em estudos do mercado agrícola, um perfil do produtor brasileiro de soja. O levantamento mostra que dos 1.400 produtores de soja pesquisados, 32% têm microcomputador e quase 19% (261) conexão ? internet. Destes, 16% já compraram produtos pela rede e o principal uso da web é para a busca de informações climáticas, estatísticas, técnicas e sobre produtos agrícolas. Entre os produtores de soja conectados, apenas 5% são considerados pequenos, isto é, cultivam até 100 hectares de terra. A situação é crítica porque justamente quem mais se beneficiaria das informações são os pequenos produtores, que não dispõem de outras fontes de informação.

3.3 Cooperativas

Observou-se que as cooperativas e indústrias de laticínios parceiras também visitadas pelo projeto da Embrapa gado de Leite, num total de 50, possuíam microcomputadores, cuja utilização resumia-se na tradicional contabilidade, controle de contas a pagar e receber, elaboração de folha de pagamento de fornecedores e empregados, e controle de estoques. Nesse particular, diagnóstico realizado pela SEBRAE-MG (1997) identificou que 73% dos laticínios com SIF (Sistema de Inspeção Federal) e 32% sem SIF, instalados no Estado de Minas Gerais, possuíam microcomputadores, cujas utilizações resumiam-se nas tarefas rotineiras acima descritas.

3.4 Associações de Criadores

As associações de Criadores, por credenciamento do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, têm atribuição de manter os livros de registro genealógico, dados de desempenho e de avaliação das condições raciais dos animais. Os procedimentos de registro requerem um processo de identificação de cada animal individualmente, ao qual se associam dados de desempenho obtidos em controles produtivos e eventos reprodutivos, entre outros. Embora geralmente as Associações de Criadores disponham de boa estrutura de hardware, os recursos de software atualmente disponíveis são limitados em termos de capacidade de processamento, e não contemplam a organização estruturada e relacional dos registros associados ? s características de produção, conformação e genealogia dos animais. A quantidade de dados aumenta anualmente, o que tende a tornar seu processamento cada vez mais lento, principalmente no tocante a manutenção e edição dos dados.

As pressões econômicas e competitividade têm induzido os produtores ao aumento do tamanho dos rebanhos e da produção para aumentar a eficiência e reduzir os custos. Estas tendências para maiores rebanhos e maior produção por animal têm ressaltado a importância da disponibilidade de informação na tomada de decisões. Por outro lado, com o crescimento do comércio de animais entre pecuaristas e, particularmente entre países, observa-se, atualmente, em nível internacional, uma preocupação com a implementação de um sistema de identificação animal, objetivando maior eficiência aos programas de manejo e seleção dos recursos genéticos, e principalmente nos programas de controle e erradicação de doenças que necessitam de procedimentos com soluções rápidas e precisas no monitoramento e rastreamento de animais na eventualidade de sua ocorrência (GONÇALVES, 2001).

Atualmente existem no mercado nacional vários softwares para o gerenciamento de rebanhos (AGROSOFT, 1998). Todavia, apesar de eventualmente eficientes na organização da informação para criadores individualmente, eles não se caracterizam com o sistema de informação – software baseado nos processos reais, que consideram o relacionamento entre setores / atividades / estágios de produção, e, neste sentido, realizam a consistência dos dados coletados entre si e com aqueles previamente existentes, ou seja, numa avaliação estruturada conforme padrões de conformidade preestabelecidos com base em critérios biológicos, cronológicos e técnico operacionais ou normativos. Assim, no âmbito das associações de criadores, constata-se a necessidade de se aplicar os recursos da tecnologia da informação no armazenamento dos registros de desempenho produtivo, reprodutivo, de conformação e genealogia dos animais, para estruturação de um banco de dados com informações sobre animais, e prover um mecanismo para a transferência dessas informações entre as instituições participantes de programas de desenvolvimento da pecuária. Em adição, a análise das informações do banco de dados, por criador, com apresentação de indicadores técnicos, permite a comparação com padrões médios de desempenho, e, assim, a identificação de pontos deficientes nos sistemas de produção. Esta avaliação, de grande auxílio na tomada de decisões, possibilita a elaboração de estratégias de ajuste do manejo dos rebanhos, visando obter ganhos em produtividade.

3.5 Infra-estrutura

A reforma agrária digital depende, em primeiro lugar, da melhoria da infra-estrutura de telecomunicações no interior. Segundo a Anatel (Lemle, 2002), apenas 350 municípios brasileiros têm provedores. Isto representa somente 6% do total de municípios. O Sudeste concentra 58% dos serviços, seguido pelo Sul (19%), Nordeste (11%), Centro-Oeste (7%) e Norte (5%). Quando não há cabeamento de telefonia e fibra ótica, a alternativa seria o acesso por satélite ou rádio. Essa alternativa, no momento, ainda é cara e fora do alcance da realidade do produtor rural brasileiro, tanto quanto o uso do computador. Segundo Oliveira (2001), dados da ONU, relativos a 2000, apenas 7,2 em cada mil brasileiros estão ligados ? internet. Esse número é próximo aos da Argentina (8,7) e do México (9,2), mas significativamente inferior ao dos Estados Unidos, onde 179,1 habitantes em cada mil estão conectados ? rede mundial. A desatenção dos órgãos brasileiros sobre o alcance da internet no campo se justifica, de certa forma, pela sua própria insignificância.

4. POTENCIALIDADES

A informática, sem dúvida, foi uma das áreas da ciência que mais rapidamente se desenvolveram e se difundiram no final do século passado. Os equipamentos de informática tornaram-se mais eficientes e acessíveis em termos de preços, assim como os softwares, tornaram-se mais acessíveis e de melhor compreensão e operacionalização. Estimativas do Prof. Fernando Meirelles, do Centro de Informática Aplicada da Fundação Getúlio Vargas (FGV), citado em reportagem de Billi (2000), indicam que nos últimos treze anos os gastos de médias e grandes empresas do Brasil com equipamentos e serviços de informática evoluíram de 1,3% para 4,5% de suas receitas. Os investimentos em informática cresceram ? medida que os custos dos equipamentos e de manutenção caíram. Ainda segundo a FGV, existem hoje cerca de 14 milhões de microcomputadores no País (tanto em empresas quanto em residências), enquanto eram 15 mil em 1988. Assim, o futuro da informática se mostra bastante promissor, principalmente diante do atual quadro em que as empresas necessitam dessa ferramenta para fazer face aos problemas e oportunidades de negócios dentro do novo cenário de economia globalizada e internacionalizada.

4.1 Internet

Um instrumental de ampla utilização na informática tem sido a Internet, que no Brasil teve grande impulso, inicialmente na comunidade científica, em seguida como plataforma de expansão do setor privado, e desde 1995, aplicados a serviços de natureza comercial. O uso comercial tem crescido significativamente como meio de realização de fechamento de negócios, divulgação de produtos, oferta de cursos, serviços bancários, compras diversas, comunicação de voz e imagem, entre outros. Em março de 2001, segundo a Fundação de Amparo ? Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) em matéria publicada pela revista Exame (2001), os domínios registrados no Brasil eram 382.000, dos quais os sites comerciais (com.br) representavam 92%.

O uso da Internet tem propiciado também a geração, propagação e utilização de conhecimentos de maneira sem precedentes na história do homem, fazendo com que as fronteiras físicas entre estados, regiões e até mesmo países percam importância no processo de comunicação. No caso brasileiro, dada a sua dimensão territorial, reforça a importância da internet como fonte de crescimento e dinamismo do negócio agrícola, oferecendo vantagens competitivas nas relações com os parceiros comerciais.

4.2 Redes

Um exemplo de como esse futuro está bem próximo, é o sistema em rede, cujo objetivo é disponibilizar aos seus usuários (assinantes), via Internet, informações que possibilitem melhorar o conhecimento e subsidiar a tomada de decisão. São informações que procuram responder questões do tipo: O produto possui as características desejadas? Agrega a melhor tecnologia disponível? Existe algum similar de menor preço que incorpora mais tecnologia? Quem são os representantes e distribuidores do produto? Existe facilidade de serviços de assistência técnica? O produto encontra-se disponível para pronta entrega?

Além disso, o serviço de rede coloca ? disposição de seus clientes serviços de notícias, jornal de negócios on line, que transmitem informações instantâneas ao leitor. Permite ainda acessar banco de dados usando palavras-chave, conhecer os últimos lançamentos, visitar centros de negócios, divulgar seminários técnicos dentro de cada área de atuação etc.

4.3 Sistemas Especialistas

Outro ramo de aplicação da informática tem sido o desenvolvimento de Sistemas Especialistas, que pertencem ? área da ciência da computação conhecida por Inteligência Artificial (Moura, 1996), cuja área está voltada para desenvolver nos computadores e equipamentos habilidades inteligentes quando comparadas ao comportamento do homem. Os Sistemas Especialistas são conceituados como programas de computador que utilizam o conhecimento de um ou mais especialistas para a solução de problemas específicos, em que o principal componente é a base de conhecimentos obtidos dos especialistas. Esta base é gerenciada por um processo de inferência e é acessada por meio de um mecanismo de comunicação que viabiliza a interface com o usuário (Hogeveen et al., 1991). Os Sistemas Especialistas, apesar do grande avanço observado nas últimas décadas, ainda não são desconhecidos pela grande maioria dos profissionais das ciências agrárias e dos dirigentes de cooperativas e indústrias de laticínios. Os relatórios gerados pelos Sistemas Especialistas, na forma de textos explicativos, facilitam o entendimento por parte dos usuários, o que os colocam em situação vantajosa em relação aos programas convencionais, pois são ferramentas imprescindíveis para tomada de decisão. De acordo com Silva, citado por Moura (1996), o potencial de utilização dos Sistemas Especialistas, nas áreas relacionadas com a economia agrícola, encontra-se na administração rural e na extensão rural. Dentre os vários segmentos do complexo agroindustrial, o segmento das agroindústrias tem se destacado com o desenvolvimento e uso de Sistemas Especialistas no planejamento da produção industrial, diagnose de contaminação e intoxicação alimentar e monitoramento dos processos produtivos.

4.4 Portais Agropecuários

As empresas privadas voltadas para o negócio agrícola que investem nesse segmento têm interesse maior no comércio eletrônico, que possibilita a compra e venda de produtos e insumos agropecuários. O recente surgimento de vários Portais agropecuários na Internet é um bom indicador de crescimento do uso e da importância dessa tecnologia da informação na agropecuária. Para Silva Jr (2001), a principal e mais evidente contribuição da Internet, para agropecuária, tem sido a disponibilização de informações, que cobrem ampla variedade de atividades agropecuárias. De acordo com esse autor, alguns portais oferecem recursos avançados, em que doenças de plantas ou animais são diagnosticadas a partir de informações prestadas pelo agricultor. Também os cursos e treinamentos com uso da Internet encontram-se em rápido processo de expansão, além disso, existem portais que permitem a formação de grupos de compra, ampliando o poder dos produtores nas negociações. Essa evolução tem sido provocada pelo desenvolvimento e rápida expansão das tecnologias da informação e de telecomunicações, aumentando o potencial de coleta, processamento, divulgação e acesso ? s informações.

4.5 Gerenciamento

Outra aplicação refere-se a sistemas que permitem a vendedores e fornecedores acessarem, em qualquer computador conectado ? Internet, informações relativas a estoques, preços, condições que podem oferecer aos clientes, por exemplo. Uma vez concretizada a transação, o sistema atualiza o estoque e disponibiliza a informação a outros vendedores da empresa e aos fornecedores. Nessa modalidade, é como se as empresas da cadeia produtiva utilizassem o mesmo sistema, propiciando grande avanço na sua coordenação, com ganhos em eficiência. Na agropecuária, sistema semelhante pode ser utilizado no controle sanitário, com a finalidade de notificar e providenciar com rapidez o controle de doenças. Também, sistemas integrando indústria de insumos, produção primária e processamento, podem gerar soluções para contribuir na melhoria da competitividade da cadeia como um todo. No segmento de produção primária, sistemas dessa natureza possibilitariam digitar e processar os dados coletados em diferentes fazendas, por exemplo daquelas filiadas de uma associação, cujos resultados gerados fossem acessados a partir de qualquer computador conectado ? rede. Na bovinocultura de corte um sistema desse tipo possibilitaria ao produtor tomar decisões de compra e venda fora da fazenda, com dados atualizados e processados de sua empresa.

4.6 Difusão do Conhecimento

Para a cadeia agroindustrial pode-se imaginar ainda, num futuro bem próximo, um serviço de rede, via Internet, com informações de toda natureza como aquelas relacionadas a dados meteorológicos, informações tecnológicas, cotações de preços de insumos, serviços, equipamentos e de produtos agropecuários e industrializados e assim por diante. Até mesmo sistemas de suporte ? decisão deverão ser disponibilizados para utilização direta pelo interessado. Novos paradigmas educacionais, como a educação ? distância por meio da Internet, devem ser intensificados, de modo a tornar o negócio agropecuário mais atrativo e competitivo. As Empresas do Conhecimento incluem universidades; escolas técnicas; centros de pesquisa; órgãos de fomento; empresas que prestam consultoria; cooperativas e serviços de extensão rural públicas e privadas. Também deverão estar disponíveis operações envolvendo bolsas de mercadorias, mercado futuro e serviços de consultoria on line.
Como se pode observar, as possibilidades de uso do sistema em rede, via Internet, são inúmeras para o setor agropecuário e até mesmo impossível de se fazer uma previsão acertada de todas as alternativas de aplicação, isto porque este sistema encontra-se em permanente processo de atualização e aperfeiçoamento.

5. LIMITAÇÕES

Em que pese o advento dos serviços de rede e do rápido desenvolvimento das tecnologias de telecomunicações com uma sofisticada base tecnológica instalada e um considerável contingente de recursos humanos qualificados, abarcando desde a pesquisa e desenvolvimento até o fomento de empreendimentos, não se pode afirmar o mesmo quando se trata do setor agroindustrial. São inúmeras as limitações para a implantação e desenvolvimento de sistemas de informação em fazendas e cooperativas agropecuários.

Entre outras, as principais limitações identificadas para informatização de fazendas foram:

  • idade média avançada dos produtores rurais (em torno de 50 anos no caso de produtores de leite);
  • baixo nível de escolaridade (educação formal);
  • migração dos filhos para outras atividades nas cidades;
  • falta de recursos financeiros para aquisição de equipamentos, material de informática e treinamento de pessoal;
  • precariedade ou ausência dos serviços de telefonia e energia elétrica;
  • ausência de provedores de acesso ? Internet.

Dentre as restrições para informatização de cooperativas agropecuárias foram identificadas:

  • falta de visão administrativa dos dirigentes de cooperativas;
  • ausência de recursos humanos qualificados para uso da informática;
  • sucateamento dos equipamentos de informática, falta de recursos financeiros para atualização dos equipamentos e treinamento de pessoal para uso da informática;
  • precariedade dos serviços de telefonia e provedoras para uso da Internet;
  • ausência de serviços para manutenção de equipamentos de informática.

No caso das fazendas, a solução dos problemas para acesso e uso da informática pode estar na criação de associações com estes propósitos. Também pode-se vislumbrar a possibilidade de que as cooperativas ofereçam esses serviços a seus cooperados ou também por intermédio das empresas prestadoras de serviços autônomos de assistência técnica.

Contudo, deve-se salientar que por mais avançada que seja a tecnologia da informação, estas são dependentes de uma boa qualidade dos dados. Ainda, se a fonte de dados não estiver disponível e o usuário não tiver acesso a tais informações, dificilmente obterá benefícios concretos na solução dos problemas práticos.

Como limitações de caráter geral, comuns ? s fazendas e cooperativas agropecuárias, pode-se citar a falta de pessoal especializado para desenvolver softwares operacionalmente funcionais. No desenvolvimento de Sistema Especialista, a maior limitação tem sido a construção da base de conhecimento. O próprio desconhecimento do especialista a respeito do que venha a ser um Sistema Especialista pode ser uma barreira. Pode até resistir em expor os seus conhecimentos com receio de que o programa venha a substituí-lo no seu trabalho.

6. CONCLUSÕES E SUGESTÕES

Ao mesmo tempo que os sistemas de informação começaram a despontar como uma das ferramentas mais poderosas da nova economia, ? disposição dos gerentes modernos, também tornou-se conhecida como um dos instrumentos mais problemáticos. O que fundamenta esse argumento são as observações empíricas de que os problemas inerentes aos sistemas de informação residem basicamente na inadequabilidade de sua administração, a exemplo do que ocorre, em proporções não menores, com as funções administrativas dentro de uma empresa, nas áreas de produção, comercialização, finanças, entre outras.

Em 0que pese o rápido desenvolvimento da informática, com equipamentos e softwares cada vez mais eficientes e acessíveis em termos de preços, as limitações do seu emprego nas fazendas e cooperativas agropecuárias encontram-se na falta de profissionais da área de suporte, principalmente nas pequenas e médias cidades e no meio rural, em geral. Em algumas situações, como nas associações de criadores, as limitações têm origem na especificidade da atividade e na falta de iniciativa ou de recursos para o desenvolvimento de sistemas de banco de dados. Outro fator limitante tem sido a ausência e a precariedade da infra-estrutura de telefonia e energia elétrica. Mesmo que a telefonia celular, via satélite, venha a ser instalada, o seu custo poderá, num primeiro momento, ser limitativo para muitos dos produtores e cooperativas.

Com certeza, os produtores rurais, cooperativas agropecuárias e associações de criadores que não fizerem uso da informática, seja por atualização dos recursos de hardware ou desenvolvimento de sistemas de seu interesse, estarão desprovidas de um recurso importante no contexto atual de mudanças, em que a falta de informação implica atraso tecnológico. O poder de mercado, por exemplo, tem se deslocado dos processadores para as redes de distribuição, resultante do acesso rápido e direto ? s informações quanto aos hábitos de consumo e coordenação dos fluxos de bens.

A principal sugestão seria desenvolver um estudo para quantificar as potencialidades e limitações que as fazendas, cooperativas agropecuárias e associações de criadores possuem para implementar o uso efetivo da informática e aplicação da tecnologia da informação na atividade-fim, nas principais regiões produtoras do País. O estudo deveria ser prioritariamente dirigido aos produtos que constam da pauta de exportações e ? queles destinados ao mercado doméstico, que tenham uma participação efetiva na formação do PIB agropecuário.

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